ABORTO ELÉTRICO
Imagina ter um conjunto chamado Aborto Elétrico, numa época em que você não podia nem ter conjunto. Uma vez, perguntaram ao Fé [Felipe Lemos], que hoje é baterista do Capital Inicial, se ele era contra ou a favor do aborto elétrico, como se fosse algum anticoncepcional a laser. (1986)
[ Tinha o Fê, que estudava na Cultura Inglesa e tinha voltado da Inglaterra. Ele era meio hippie — tinha barba, cabelo comprido, mas usava calças rasgadas. Uma coisa híbrida — hippie com punk. E Sex Pistols daqui, Sex Pistols dali... Até que
pintou o dia em que eu estava na Taberna e veio descendo um punk com a namorada dele, um Sid Vicious loiro: era o André Pretorius. Eu cheguei para ele e a primeira coisa que eu falei foi: "Você gosta dos Sex Pistols?". E ele: "Sex Pistols! Yeah! Jóia!". E começamos a trocar informações. Eu tinha acabado de receber o segundo LP do Clash [Give'en enough rope] e ele, o primeiro compacto do PIL. Isso já devia ser 78. Então, bem: “Vamos formar uma banda?”. Aí formamos o Aborto Elétrico — ele tocava guitarra e eu, baixo. Eu fiquei enchendo meu pai para ele me comprar um instrumento. Foi meio difícil, mas eu estava trabalhando e juntei uma grana, ele me ajudou, e comprei um baixo. (1989)
[ Eu me lembro que a primeira apresentação do Aborto Elétrico foi num pequeno barzinho no Gilberto Salomão, onde só se vendia cana — chamava, inclusive, Só Cana. Tinham certas pessoas ligadas nos anos 70 que deram muita força. E a gente era muito entusiasmado. Se encontrássemos alguém para contar a história dos Pistols e o que esse Sid Vicious fazia, como era a história toda... Ou, nós mesmos, falando de como era bacana a gente tentar fazer rock ' n' roll, reclamar da vida e tudo. Enfim, se encontrássemos alguém que nos ouvisse, despejávamos tudo. Fomos, levamos umas coisas, o Fê com caxumba, febre de 40 graus e, quando terminamos o set de cinco músicas, o pessoal reagiu com: "Ehhhhhh! De novo!!". Porque brasileiro gosta muito de uma zona. Então, dá-lhe zona. Aí, tocamos as cinco músicas de novo e, pelo que soube, a cidade inteira falou disso depois. Ninguém nunca tinha ouvido falar de um grupo de música chegar, tocar de graça e ainda fazer aquele barulho. O Aborto Elétrico não era rápido — era lento, tipo Pistols, MC5 e Stooges. Nos colégios de classe média — Objetivo, Elefante Branco, Marista —, o comentário era: "Você viu, aqueles caras são maconheiros, blá, blá, blá..." (1989)
[ O nome Aborto Elétrico é justamente porque eles inventaram, em 68, os cassetetes elétricos que davam choque. Numa dessas batidas, uma menina que estava grávida, nada a ver com a história, levou uma tal daquelas cacetadas e perdeu a criança! Coisa de mau gosto! Então, Aborto Elétrico era o que representava a música da gente. Agora, a repressão existia em vários níveis, em todos os lugares. Tinha de se ter muito cuidado com o que se falava — não podia falar mal do governo,
nada. Nem bzzzzzzz. E era só verem um grupo de jovens juntos que vinham estragar, tipo desmancha prazer. Hoje ainda continua. Cada quatro quadras têm uma viatura especial, com telefone especial. (1989)
[ O Aborto Elétrico acabou virtualmente quando o André Pretorius foi para a África do Sul servir o exército e matar os negros. Eu passei do baixo para a guitarra — ensinei o Flávio [Miguel], do Capital, a tocar baixo e ele entrou na banda. Foi aí que comecei a usar as letras, porque eu tinha vergonha de cantar. E, nessa segunda encarnação, já apareceu a Blitx, o que facilitava as coisas. Eles tinham um amplificador e nós, outro. Juntávamos os dois, bateria e, com isso, tocávamos em colégio, festinhas, festas de aniversário. Até que foi crescendo, crescendo, crescendo e… novamente acabou o Aborto Elétrico [março de 1982]. (1989)
A gente era bem niilista, no sentido de que quase não fazia apresentação ao vivo. Realmente, o Aborto Elétrico era só um projeto. Mas, a partir de um determinado momento, tudo começou a se cristalizar, porque, de repente, a turma cresceu. Tinha o pessoal que estava nas bandas, tinham as meninas que ajudavam a gente a colar cartazes, a fazer buttons. Tinham uns amigos nossos que construíam guitarras, porque ninguém tinha dinheiro para comprar uma. Mesmo a gente sendo de família de classe média alta, era muito, muito caro. Não tinha esse mercado do rock. (1994)
[ Era ensaio todo fim de semana. Na fase do Aborto Elétrico, explodiu tudo o que eu não vivi nos dois anos em que fiquei na cama [devido à epifisiólise, doença que afeta as extremidades dos ossos]. Apareceu uma nova geração no rock que dizia: “Você não precisa estudar música para fazer rock’n'roll. Você pode pegar uma guitarra e fazer”. Éramos os punks. Nossos padrinhos foram os Paralamas do Sucesso. (1995)
Renato Russo de A à Z
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Comentário Tardio mas tah aqui hehehe
Vlw pelo post, toh tentando aprender coisas sobre a banda
flw