A diva do rock brasileiro no Punknet

Pitty

24/09/2007 | por Ricardo Gameiro

Em coletiva online nesta quinta feira Pitty falou sobre seu novo trabalho, o cd/dvd {Dês}concerto vivo (Deckdisc). A bolacha traz a show da turnê “Anacrônico”, nome do álbum mais recente da baiana, lançado há dois anos.

– Até que ponto você se envolveu para que o registro ficasse com a sua identidade?

Cem por cento. Tudo que acontece no meu trabalho é pautado na questão de parcerias. Se eu chamo a Joana (Mazzucchelli, diretora) pra dirigir esse DVD, tudo parte do principio de sentar e conversar pra ver como vai ser o DVD. Porque ela tem a assinatura dela, o jeito dela de dirigir, e eu tenho também o meu conceito e agente precisa conciliar essas duas coisas. A direção dela, o que o som quer dizer, foi muita coisa. Desde o principio agente trocou muita idéia, viu referencias juntas, trocamos vídeos. Eu não conseguiria fazer nada na minha vida se não fosse dessa forma.

– O show carrega um pouco desse conceito sombrio, cheio de insinuações. O seu rosto nunca aparece totalmente, tá sempre com uma sombra…

Existe um mistério mesmo, sempre fui atraída pelas sombras e sempre gostei muito desse conceito. E todas as bandas que eu gosto carregam isso. Existe muito mais mistério nisso, pensar que você viu… interpretar uma imagem. Eu me sinto mais confortável no escuro, mais protegida.

– Você está num momento em que você considera o auge. Os shows são sempre empolgantes e a resposta do público sempre é muito boa. Você acha que esse é o momento mais alto da sua carreira e por isso resolveu registrar?
Se é auge eu não sei. Acho que auge é uma coisa que passa… não sei o que é auge. A gente resolveu fazer esse DVD agora pra suprir uma necessidade de fechar um ciclo. A gente ta vindo de dois discos, uma turnê de cinco anos que a gente praticamente emendou a primeira com a segunda sem parar. É óbvio que eu já penso em fazer o terceiro disco, mas me veio essa sensação que pra fazer esse terceiro disco eu precisava dar uma reclicada. Eu quero ter um tempo de ócio pra poder “armazenar munição”. Ler mais livros, ouvir novas músicas, criar coisas novas. Me dá pânico só de pensar que eu posso continuar repetindo o que eu já fiz só porque deu certo. Esse DVD veio pra fechar essa tampa. Porque nós não sabemos como vai ser o terceiro disco, então agente queria guardar esse momento bacana que a gente vive em imagem.

– Porque essa escolha de não ter nenhum convidado no DVD?
– Porque é o primeiro da banda. Eu achei que tinha que ser só a gente mesmo, tocando as nossas músicas, sem cover nem nada. Eu queria que as pessoas vissem o show como ele é.

PUNKNET – As novas músicas já começam a apontar para novos rumos, soando cada vez mais stoner e às vezes beirando o noise rock com muitas guitarras e camadas sonoras. Como se deu essa transição?
– Música é um aprendizado. Quando eu gravei o primeiro disco era a primeira vez que eu entrava num estúdio pra fazer um lance profissional. O que eu contava era com a experiência das pessoas que estavam trabalhando comigo. Ao longo desse tempo, além da experiência dessa galera, a gente vai somando a nossa pegada de já entrar sabendo o que vai fazer… preencher melhor as músicas. Quando eu faço música eu não penso nisso de “formato”. A entrada do Martin (guitarra) na banda tem a ver com isso também.

A novidade fica por conta de duas novas canções no repertório: Pulsos e Malditos Cromossomos, ambas assinadas por Pitty e seu guitarrista e ex-Cascadura Martin.

Na entrevista, conduzida pelo apresentador circense Edgard Piccoli, Pitty falou sobre a atual fase da banda, influências, cenário independente, novos rumos e internet, claro.

– A letra da música “Pulsos” é uma poesia suicida. Você acha que essa letra pode influenciar seus fãs?

– Eu não sei por que partem do principio que artista é educador, que a gente tem de ser didático. A gente não tem que ser didático. A gente tem que se expressar. No caso de “Pulsos”, essa coisa de cortar os pulsos no final como uma saída de emergência é uma metáfora. Isso pode ser interpretado em milhões de formas. Se você desiste de alguma coisa você às vezes diz “vou ali cortar os pulsos e já volto”. As pessoas precisam ir além da superficialidade e interpretar as coisas de uma forma mais profunda. E não só as músicas, mas também os livros que elas lêem e os programas que elas assistem.

O DVD foge um pouco do formato do que se tem visto no mercado ultimamente. A ausência de participações especiais, por exemplo. Essa foi uma decisão consciente, e o que ela representa?

– A gente queria que o produto final fosse independente no sentido que a gente tivesse liberdade pra fazer do nosso jeito. Em termos estéticos, sonoros. Tinha que ser nosso.

– Você decidiu fazer esse DVD/CD ao vivo após apenas dois discos de estúdio lançados. Outras bandas esperam mais tempo pra lançar um ao vivo. Esse era o momento certo pra você?

– Enquanto as pessoas estão pensando em “apenas” dois discos eu já estou pensando em “já” dois discos. Hoje em dia tudo é muito mais rápido e as pessoas aqui no Brasil estão presas a uma mentalidade que eu não entendo. Elas pensam que gravar DVD ao vivo é uma tábua de salvação pra uma banda que ta mais ou menos. Isso talvez seja por causa dessa leva de DVD´s ao vivo e acústicos. Às vezes a banda nem existe mais e faz acústico. Eu acho que isso deixou o público com uma má impressão do formato. Quando lá fora, toda banda fodona e no auge encerra a turnê com DVD. Por conta desse pensamento que eu consegui ver a última turnê do Muse, do Queens of the Stone Age.

– De todas as canções, quais as que você acha que melhor funcionaram nessa gravação ao vivo?

– Eu gostei muito de “Ignorin´U”. Eu achei legal “Na sua estante”. “Pulsos” ficou legal também, levando em consideração que é uma música nova e a gente ainda tava testando ela em alguns shows.

– Quais DVDs e CDs ao vivo você mais gosta e pensou para moldar o clima de seu primeiro trabalho ao vivo?
– Teve uma das referências que eu tive a oportunidade de ver ao vivo naquele esquema bem noir, que foi o show do Nine Inch Nails aqui no Brasil. O clima do show dos caras é absurdo. É só luz de contra. Por mim eu faria um show inteiro só com luz de contra. Mas aí já é “The Cure” demais. Eu gosto muito desse estilo Bauhaus.

– Você surgiu um pouco antes dessa chamada “crise do mercado fonográfico”. Isso gerou toda uma paranóia que as gravadoras iam acabar e fez com que as gravadoras começassem a arrumar novas formas de se comunicar com os artistas e com o mercado. Você citou o Vanguart e outras que surgiram nesse novo contexto e que estão construindo uma carreira sólida e vendendo muito disco de formas alternativas. O que você pensa sobre isso?

– Quando eu assinei com a Deckdisc a coisa já era muito diferente do que a gente ouvia falar. Assinou com a gravadora? Vai ter limusine na porta, banho de champagne, rockstar… isso não existe. Você precisa coordenar melhor as coisas e agir de acordo com o que você tem. Na Deck a galera tem uma mentalidade de independente, embora tenha um poder de fogo um pouco maior. E isso é muito bacana porque você vai fazendo as coisas conforme as coisas vão dando resultado, você não viaja em coisas astronômicas. Eu não sei o que vai acontecer com o mercado. O que sei é que eu vou continuar fazendo música e me adaptando as circunstâncias que aparecerem.

PUNKNET – Como você disse, hoje o mercado é muito efêmero e mutante. A internet é a principal ferramenta para quem quer ouvir coisas novas. Você acha que plataforma CD está com os dias contados? Você considera possível lançar seus próximos trabalhos em outras mídias?

– Claro. Inclusive esse projeto do DVD a gente pensou em lançar em pen drive. Estamos sempre buscando novas alternativas pro mercado.


– Você tem uma relação próxima com seus fãs?

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– O contato acontece mais pela internet mesmo. Existem umas listas de discussão sobre a banda no site, onde tem um blog também. Pro DVD a gente criou um hot site pra facilitar a vida dos fãs que queriam vir participar da gravação, indicando onde se hospedar e como ir até o local. Antes da gravação a gente disponibilizou “Pulsos” no site. Chegou no dia todo mundo já sabia cantar.

– Segundo algumas entrevistas, você diz que este trabalho chega para fechar um ciclo. Que tipo de experiência você leva desse período?

– Eu fico feliz de olhar pra trás e ver que todas as escolhas que a gente fez por mais arriscadas que fossem, deram certo. A gente fez umas coisas que teoricamente não era pra fazer. Por exemplo, o primeiro single da banda era uma música de cinco minutos com parte em inglês. Loucura. A gente sempre tentou seguir o que a gente achava bacana. Dá um medo, mas eu tenho muito orgulho das coisas que a gente fez.

– O que você acha da interpretação da mídia para o seu trabalho? Já aconteceu alguma confusão que te irritou?
– Tem uma galera que não se deixa levar por essa coisa meio adolescente/cult de meter o pau naquilo que ta dando certo. Se toca no rádio, é ruim. Legal é o Klaxons? E tem outra linha que já pensa: gostando ou não, o trabalho daquela pessoa ta rolando. Qualquer pessoa tem o direito não gostar, mas eu acho chato quando a pessoa é leviana, quando não tem embasamento nenhum pra falar. É meio frustrante.

– Neste ano você completa 30 anos. Mas as suas canções permanecem circulando pelo universo típico pós-adolescente. Você se encontra dentro da realidade desta faixa etária?

– Claro! Minha idade mental é de 13 anos… Eu não faço música pensando em quem vai me ouvir. Se é um moleque de 15 ou um cara de 45. Eu faço música pra me expressar, o que eu sinto e penso. Um paradigma que existe e é difícil de ser quebrado é o seguinte: o rock é tipicamente uma música jovem. O fato de se convencionar que o rock é uma música de adolescente acaba afastando um monte de adulto. Se alguém diz “Você ouve Pitty? Música de criança né?”. daí a pessoa já pensa que não pode gostar. Adulto tem que gostar de Burt Bacharach ou qualquer coisa cult.


– Você pensa em fazer carreira internacional?
A gente já tocou duas vezes em Portugal, fizemos dois shows no Japão e agora estamos indo pra Buenos Aires fazer dois shows. Nunca fizemos projeções internacionais. Sempre fizemos a coisa passo a passo. Se rolar a oportunidade de lançar o disco por algum selo em outro país, legal.

– Você tem ouvido alguma banda independente brasileira que te agrade?

– Eu gosto do Vanguart, Zeferina Bomba. Tem uma banda chamada Macaco Bong, de Cuiabá. Trio instrumental muito bom, meio Mars Volta, que mistura rock, jazz e outras coisas.

Sobre Josi Vice

Moro em Recife, Pernambuco, onde nasci a 11 de outubro de 1985. Sou latino americano pós- moderno, poeta, cínico, dark, emocional e cerebral, um caranguejo com cerébro pós- Chico, um Nietzscheano sem Nietzsche, com delírios de poeta intelectualóide. Escrevo poesia desde os 15 anos. Sou fissurado em Hentai, Slipknot e Rock´n´Roll e em Literatura, Pop ou qualquer música de boa qualidade. Também adoro navegar pela net e pesquisar na web. Amo ler revistas e artigos, principalmente se for de culura. Esse cara sou eu. Nome real: Josafá César da Silva, mas prefiro Josi Vice ou Joker Vice ou César Vice. Signo: Libra Bandas e cantores preferidos: Slipknot, Beatles, Sex Pistols, Marilyn Manson, Cazuza, Legião Urbna, Elvis Presley, Silver Chair, Echo & The Bunnymen, The Cult, Southern Death Cult, Depeche Mode Poetas Preferidos: Fernando Pessoa, Camões, Marcos Henrique, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos, Allen Ginsberg Escritores favoritos: Nietzche, Machado de Assis, Paulo Coelho, Clarah Averbuck, Franz Kafka, Clarice Lispector e John Fante
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12 respostas para A diva do rock brasileiro no Punknet

  1. Roberta Ramos disse:

    Olha, pra mim a Pitty é uma artista completa, e suas música são extremamente tocantes e com sentidos únicos e magníficos!!!!
    O DVD tá demais, e a energia no dia da gravação foi simplesmente demais e maravilhosa!!!!
    Vai ser inesquecível, e cada momento vai ficar em meu corção e em minha memória!
    Beijos a todos e a Pitty tb!!!!

    “USE, SEJA, OUÇA, DIGA!”

  2. julio disse:

    aee pittonaaa

  3. minzinha disse:

    cara***
    mto boa a materia!
    perguntas otimas e nao repetitivas!
    mto bom msmo!parabens!

  4. higor disse:

    Perfeito.. Como sempre
    Pitty, I love you vc!!!hehehe

  5. renan disse:

    pitty é a melhor banda nacional da atualidade sem duvidas!
    ja ta marcada na historia do rock br!
    completa de sonoridade e letras!!

  6. mayrock disse:

    aewww pitty!!!

    \o/

    iurigooooo

  7. Juliana disse:

    Muito boa materia, perguntas otimas….entrevistada perfeita 😄

    Parabens

  8. Adorei a Entrevista “ESCOLA DO ROCK” de parabéns ^^

  9. natalia disse:

    massa a entrevista 😉

  10. Joker Vice disse:

    obrigado pessoas
    a pitty eh mto foda msm
    adoro ela
    e é bom saber q meu gosto e q a entrevista catada na ent agradou vcs
    bjos

  11. Fernanda disse:

    Realmente amo a Pitty, tanto como artista, quanto como pessoa, pela imagem que ela pessa!
    O DVD está muito bom, passa uma energia muito positiva…gostei !

    É isso ae! xD

    Parabéns e sucesso pra Pitty!
    :*

  12. marlildo lima disse:

    gentii amo a pitty!
    adorei a entrevista!
    passem no website que fiz pra ela please!

    http://www.meadd.com/pitty0riginal

    beijos! ;)*

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