Toda História de Woodstock 69…

Toda História de Woodstock 69…

 

Texto e direito autorais de: The Times Herald-Record – 1994.
Tradução: Helen Dias.
Adaptação e texto final: Mário Santos.

 

O último fã encharcado de lama deixou o pasto de Max Yasgur a mais de 25 anos atrás. Isso foi quando o debate sobre o significado histórico de Woodstock começou. Verdadeiros crentes na cultura hippie chamam Woodstock de “o marco final de uma era dedicada ao avanço humano”. Os cínicos dizem que foi “o fim adequado e ridículo de uma era de ingenuidade”. Há ainda os que dizem que tudo aquilo foi apenas uma festa dos infernos!
A Feira de Arte e Música de Woodstock, em 1969, trouxeram mais de 450.000 pessoas para um pasto no Condado de Sullivan. Durante quatro dias, o local se tornou uma mini-nação contra-cultural na qual as mentes estavam abertas, drogas eram o que havia de mais legal e o amor era “livre”. A música começou na tarde de 15 de agosto, sexta-feira, às 17:07h e continuou até a metade da manhã do dia 18 de agosto, segunda-feira. O festival fechou a via expressa do Estado de Nova Iorque e criou um dos piores engarrafamentos da nação. Também inspirou um monte de leis locais e estatais para assegurar que nada como isto jamais aconteceria novamente.
Woodstock, como poucos eventos históricos, se tornaram uma espécie de herança cultural, para os EUA e para o mundo. Assim como “Watergate” representa uma crise nacional e “Waterloo” representa derrota, “Woodstock” se tornou um adjetivo imediato que denota o poder dos jovens e os excessos dos anos 60.
– O que nós tivemos aqui foi um fato que ocorre uma vez na vida, na cidade de Bethel – diz o historiador Bert Feldman. Dickens disse isto primeiro: “Foi o melhor dos tempos. Foi o pior dos tempos”. É uma mistura que nunca será reproduzida novamente.
Unidos naquele fim de semana em 1969 estavam mentirosos e amantes profetas e aproveitadores. Eles fizeram amor, eles fizeram dinheiro e eles fizeram um pouco de história. Arnold Skolnick, o artista que projetou o símbolo de pomba-e-violão de Woodstock, o descreveu deste modo:
– Algo de grandioso foi feito neste país. E todo o mundo simplesmente veio.
Woodstock custou basicamente, mais que $2.4 milhões e foi patrocinado por quatro homens muito diferentes e muito jovens: John Roberts, Joel Rosenman, Artie Kornfeld e Michael Lang.
O mais velho dos quatro tinha 26 anos. John Roberts entrou com o dinheiro. Era o herdeiro da fortuna de uma farmácia e de uma fábrica de pasta de dentes. Ele tinha um capital multimilionário, era graduado na Universidade de Pennsylvania e tenente do Exército. Ele tinha visto apenas um show de Rock, dos Beach Boys.
Joel Rosenman, amigo ligeiramente hippie de Robert, e filho de um proeminente ortodontista de Long Island tinham se formado há pouco na Faculdade de Direito de Yale. Em 1967, o bigodudo Rosenman, de 24 anos, estava tocando guitarra num conjunto que tocava em motéis de Long Island a Las Vegas.
Roberts e Rosenman se encontraram em um campo de golfe no outono de 1966. Por volta do inverno de 1967, eles dividiam um apartamento e estavam tentando descobrir o que eles deviam fazer com as suas vidas. Eles tiveram uma idéia: criar uma comédia maluca para a televisão, como uma versão masculina de I Love Lucy.
– Era uma comédia de escritório com dois colegas com mais dinheiro do que cérebro, e uma sede de aventuras – disse Rosenman. – Toda semana eles entrariam em uma aventura empresarial diferente, em algum esquema doido. E todas as semanas eles seriam salvos dos problemas na hora H.

Para adquirir idéias de enredos para sua comédia, Roberts e Rosenman puseram um anúncio no Wall Street Journal e no New York Times em março de 1968: “Homens jovens com capital ilimitado procurando oportunidades de investimento interessantes e legítimas e propostas de negócio”.Eles receberam milhares de respostas incluindo uma de bolas de golfe biodegradáveis. Um outro parecia estranho o bastante para funcionar como uma real aventura empresarial: ski-bobs, bicicletas em esquis que eram uma moda passageira na Europa. Roberts e Rosenman pesquisaram a iéia antes de abandoná-la. No processo, os dois passaram de prováveis escritores de televisão a aprendizes de aventureiros capitalistas.
– De alguma maneira, nós nos tornamos os personagens em nosso próprio espetáculo – disse Rosenman.
Artie Kornfeld, 25 anos, usava um terno, mas as lapelas eram um pouco largas demais, e o cabelo caía sobre suas orelhas. Ele era um vice-presidente da Capitol Records. Ele fumava haxixe no escritório e era a conexão da companhia com os roqueiros que estavam começando a vender milhões de discos. Kornfeld tinha escrito talvez 30 singles de sucesso, entre eles Dead Man’s Curve, gravada por Jan e Dean. Ele também escreveu canções e produziu a música para o Cowsills.
Michael Lang não usava sapatos muito freqüentemente. Amigos o descreviam como um elemental cósmico, com uma cabeça cheia de cabelo preto encaracolado que saltava em seus ombros. Aos 23 anos, ele possuía o que pode ter sido a primeira matriz de uma loja no estado da Flórida. Em 1968, Lang tinha produzido um dos maiores shows de rock, o Miami Pop Festival que durou dois dias e contou com 40.000 pessoas. Aos 24 anos, Lang era o produtor de um grupo de rock chamado Train o qual ele queria que assinasse um contrato de gravação. Ele trouxe sua proposta a Kornfeld na Capitol Records no fim de dezembro de 1968.
Lang sabia que Kornfeld tinha crescido em Bensonhurst, Queens, como ele próprio. Lang conseguiu uma entrevista dizendo à recepcionista da gravadora que ele era “da vizinhança”. Os dois se deram bem imediatamente. Pouco tempo depois que eles se encontraram, Lang mudou-se para a casa de Kornfeld e sua esposa, Linda. Os três batiam papo até altas horas da noite, sobre todos os assuntos, movidos a alguns baseados, no seu apartamento em Nova Iorque.
Uma de suas idéias era uma espécie de exposição-show-de-rock-loucura-cultural. Uma outra era de um estúdio de gravação, a ser colocado no meio de um bosque a mais de 100 milhas de Manhattan em uma cidade chamada Woodstock. A localização refletiria o espírito contracultural do “de volta a terra”, todos abandonando a vida maluca da cidade para pisarem descalços na grama. Além disso, o Condado de Ulster (onde ficava Woodstock), tinha sido uma mecca de artistas por um século. Por volta do fim dos anos 60, músicos como Bob Dylan, The Band, Tim Hardin, Van Morrison, Jimi Hendrix e Janis Joplin estavam mudando-se para a área e queriam um estúdio dos mais avançados.
Lang e Kornfeld estavam levantando o capital inicial para o festival e para construir o estúdio de gravação. Eles nunca viram o anúncio de “homens jovens com capital ilimitado”, mas o seu advogado recomendou que eles falassem com Roberts e Rosenman. Os quatro se encontraram em fevereiro de 1969.

– Nós nos reunimos no apartamento deles na Rua 83 em um prédio bem alto – lembra-se Lang. – Eles eram meio prepotentes. Hoje em dia, imagino que eles seriam yuppies. Eles estavam usando ternos. Artie foi quem mais falou, acho que foi porque eles pareciam confusos comigo. Eles estavam curiosos com a contracultura, e estavam de alguma forma interessados no projeto. Eles quiseram uma proposta escrita, que nós tínhamos mas não havíamos trazido conosco. Nós lhes dissemos que nos encontraríamos novamente com um orçamento para o festival.
Até hoje, os fundadores de Woodstock discordam quanto a quem propôs a idéia original do concerto. E depois de tanto tempo e discussão, a memória de ninguém consegue lembrar ao certo como tudo começou. Lang e Kornfeld dizem que Woodstock foi sempre planejado como o maior festival de música já feito. Na segunda reunião, Lang recorda-se de discutir um orçamento de $500.000 e audiência de 100.000 pessoas. Disse que tinha começado a olhar locais para festivais por volta do outono de 1968, o que teria sido bem antes de ele ter se unido a Kornfeld ou Roberts e Rosenman. Mas Rosenman e Roberts mantêm que eles eram a força motriz atrás do festival. Eles afirmam que Kornfeld e Lang queriam um estúdio, noticiado com exagero por um grupo de críticos de rock ‘n roll e executivos de gravadoras.
– Nós teríamos coquetéis e canapés em uma barraca ou algo assim – disse Rosenman. – Nós enviaríamos limusines até Nova Iorque para pegar todo o mundo. Tim Hardin ou alguém mais poderia cantar. Talvez, se nós tivéssemos sorte, Joan Baez se levantaria e cantaria umas músicas.
Em algum ponto, Rosenman e Roberts focalizaram na idéia do festival e decidiram que aquilo realmente devia ser um show de rock.
– Nós fizemos um trato – disse Rosenman. – Nós faríamos o festival, e os lucros seriam usados para pagar pelo estúdio de gravação. No final, nós tínhamos o dinheiro. Então, o que nós dissemos foi o que aconteceu.
Ao final da sua terceira reunião, o pequeno festival lá em Woodstock tinha virado uma bola de neve e passou a ser um concerto para 50.000 pessoas, o maior espetáculo de rock do mundo. Os quatro sócios formaram uma corporação em março. Cada um ficou com 25%. A companhia foi chamada de Woodstock Ventures Inc., em homenagem a cidadezinha do Condado de Ulster onde Dylan viveu.

O time da Woodstock Ventures correu para achar um local. Agentes imobiliários por todo o meio-Hudson estavam rastreando a zona rural para encontrar terra para alugar por alguns meses. Surgiram oportunidades no Condado de Rockland, depois em Orange. Mas, finalmente, por $10.000 a Woodstock Ventures alugou uma área de terra na Cidade de Wallkill cujo dono era Howard Mills Jr.
– Era um domingo no fim de março – disse Rosenman. – Nós fomos de carro a Wallkill e vimos o parque industrial. Nós falamos com Howard Mills e fizemos um trato.
– As vibrações não eram bem ali. Aquilo era um parque industrial – acrescentou Roberts. – Eu apenas disse: “Nós temos que ter um local agora.”
Os 300 acres do Mills Industrial Park ofereciam um acesso perfeito. Ficava a menos de 2 km da Rota 17 que dava na auto-estrada do Estado de Nova Iorque, e saía direto da Rota 211, uma principal estrada local. O local tinha o essencial, eletricidade e água encanada.
A terra era dividida em zonas para indústria; entre os usos permitidos estavam exibições culturais e concertos. Os promotores entraram em contato com a secretaria de urbanismo da cidade e receberam uma permissão verbal para ir à frente por causa da demarcação. Todavia, Lang estava infeliz com o local. Estava faltando o ambiente de “volta à terra” que a Woodstock Ventures estava vendendo.
– Eu odiei Wallkill – disse Lang.
A Ventures partiu para o trabalho na propriedade de Mills, o tempo todo procurando por uma alternativa.
Rosenman disse aos funcionários de Wallkill, no final de março ou início de abril, que o concerto daria destaque a bandas de Jazz e cantores folk. Ele também disse que 50.000 pessoas assistiriam se eles tivessem sorte. O supervisor da cidade, Jack Schlosser, achava que algo era suspeito.
– Mais que qualquer outra coisa, eu realmente sinto que eles estavam enganando a gente – disse Schlosser. – O fato é, eles não foram nada sinceros quanto aos números. Eu me dei conta, à medida em que as discussões progrediam, que eles realmente não sabiam o que estavam fazendo. No Exército as divisões eram de 40.000 homens. “Jesus Cristo, 50 mil pessoas era muita coisa”, eu disse em um certo ponto. Eu não me importaria se fosse uma convenção de 50.000 ministros, eu teria agido do mesmo modo.

Na atmosfera político-cultural de 1969, os promotores Kornfeld e Lang perceberam que era importante lançar Woodstock de um modo que apelaria para a sensação de independência de sua geração. Lang queria chamar o festival de uma “Exposição Aquariana”, dando destaque à referência zodiacal do musical Hair. Ele mandou desenhar um cartaz mostrando o carregador de água, simbolizando o começo de Aquário.
No início de abril, os promoters estavam cultivando a imagem de Woodstock cuidadosamente na imprensa underground, em publicações como a Village Voice e a revista Rolling Stone. Anúncios começaram a ser lançados em The New York Times e The Times Herald-Record em maio. Para Kornfeld, Woodstock não era uma questão de construir palcos, assinar atos ou até mesmo vender ingressos. Para ele, o festival era sempre um estado da mente, um acontecimento que tornaria a geração um exemplo. A publicidade do evento com esperteza se apropriou de símbolos e frases de efeito.
– A imagem que o concerto retratava era bacana – disse ele.

O grupo concordou quanto ao slogan concreto de “Três Dias de Paz e Música” e deixou para trás o tema altamente conceitual de Aquário. Os promotores calcularam que “paz” ligaria o sentimento anti-guerra ao show de rock. Eles também queriam evitar qualquer violência e calcularam que um slogan com “paz” ajudaria a manter a ordem.
A logomarca de Woodstock na realidade não era uma pomba; o original era um outro pássaro, empoleirado em uma flauta.
– Eu estava em Shelter Island, perto de Long Island, e eu estava desenhando todo o tempo – disse o artista Arnold Skolnick. – Assim que Ira Arnold (um copywriter do projeto) apareceu com os tais “Três Dias de Paz e Música”, eu só peguei uma gilete e recortei aquele pássaro do bloco de desenhos que eu estava usando. Primeiro, ele estava sentado em uma flauta. Eu estava escutando jazz no momento, e eu acho que esse é o porquê. Mas de qualquer maneira, ele ficou sentado em uma flauta durante um dia, e eu finalmente acabei pondo ele em um violão.

E começam as contratações…
Melanie Safka tinha uma música no rádio chamada “Beautiful People”. Um DJ extremamente hippie chamado Roscoe na WNEW-FM tocava essa música. Um dia, Melanie se encontrou com um sujeito de cabelo encaracolado, que trabalhava na área da música, chamado Michael Lang, que estava falando sobre um festival que ele estava produzindo. Quando Melanie perguntou se ela poderia tocar lá, a resposta de Lang foi bem tranqüila:
– Claro.
– Eu pensei que aquilo seria muito pouco emocionante – recorda-se Melanie.
A Woodstock Ventures estava tentando conseguir as maiores bandas de rock da América, mas os roqueiros estavam relutantes em se comprometer com um empreendimento de risco, que poderia ser impossível de se levar adiante.
– Para adquirir os contratos, nós tínhamos que ter a credibilidade, e para adquirir a credibilidade, nós tínhamos que ter os contratos – disse Rosenman.
A Ventures resolveu o problema prometendo cachês jamais vistos antes de 1969. A grande inovação veio com a confirmação da principal banda psicodélica daqueles dias, The Jefferson Airplane, pela incrível quantia de $12.000. O Airplane normalmente recebia cachês de $5.000 a $6.000. Creedence Clearwater Revival assinou por $11.500. The Who entrou, então, por $12.500. Todas as coisas começaram a entrar na linha. Ao todo, a Ventures gastou $180.000 em pagamentos desse gênero.
– Eu tomei uma decisão de que nós precisávamos de três atos principais, e eu lhes disse que não me preocuparia com o que custasse – disse Lang. – Se eles estavam pedindo $5.000, eu dizia: “Paguem $10.000.” Assim nós pagamos eles, assinamos os contratos, e era isso aí: credibilidade imediata.

Na primavera de 1969, a carreira de John Sebastian estava em cheque. De 1965 a 1967 a banda de Sebastian, a Lovin’ Spoonful, tinha lançado hit após hit: Do You Believe in Magic, You Didn’t Have To Be So Nice, Did You Ever Have To Make Up Your Mind, (What a Day For a) Daydream e Summer In The City. Mas em 1967, depois que o Lovin’ Spoonful apareceu no The Ed Sullivan Show, as coisas começaram a dar errado.
Dois membros da banda foram presos por posse de maconha e deixaram o grupo. Seus substitutos nunca se ajustaram bem. Em 1968, o grupo se separou. Sebastian, que já tinha gravado até com o The Doors, tentou carreira solo. Mas sua carreira performática não estava deslanchando. Assim, na primavera de 1969, Sebastian se encaminhou ao oeste para fazer um pouco de busca pela alma. Ele terminou em uma comunidade da Califórnia onde os hippies ganhavam dinheiro fazendo camisas ultra-coloridas e jaquetas por um processo que eles chamavam de “tie-dye”.

Os residentes de Wallkill tinham ouvido falar de hippies, drogas e concertos de rock, e depois que o anúncio de Woodstock chegou a The New York Times, The Times Herald-Record e as estações de rádio, os residentes locais souberam que um show de rock de três dias, talvez o maior de todos, estava para acontecer. Além disso, os empregados da Woodstock Ventures se pareciam de verdade com hippies.
Nas mentes de muitas pessoas, cabelo longo e roupas descuidadas eram associados com política de esquerda e uso de drogas. As idéias novas sobre reordenar a sociedade eram ameaçadoras para muitas pessoas. Em Wallkill, esses sentimentos foram lançados sobre Mills e sua família. Residentes paravam Mills na igreja para reclamar. A Ventures tentou acabar com algumas das reclamações contratando Wes Pomeroy, um ex-assessor do Departamento de Justiça, para chefiar os detalhes de segurança. Um ministro, o reverendo Donald Ganoung, foi posto na folha de pagamento para chefiar relações locais.

 

1, 2, 3, som!
Allan Markoff olhava as duas monstruosidades entrando em sua loja no final de abril ou início de maio. Eles eram Lang e o amigo dele, Stan Goldstein. Goldstein, de 35 anos, tinha sido um dos organizadores do Miami Pop Festival de 1968. Na Woodstock Ventures, ele era o coordenador de acampamentos.
– Eles queriam que eu projetasse um sistema de som para mais ou menos 50.000 pessoas – disse Markoff, que possuia a única loja de estéreo em Middletown, a Audio Center, na North Street. – Eles disseram que poderia haver até mesmo 100.000 pessoas, poderia ir até mesmo a 150.000.
Ele pensou que Lang e Goldstein estavam loucos.
– Nunca tinha havido um concerto com 50.000; isso era incrível – disse Markoff. – Agora, 100.000, isso era impossível. É equivalente a fazer um sistema de som para 30 milhões de pessoas, hoje em dia.
Markoff, então com 24 anos, era o único residente local listado na Audio Engineering Society Magazine (Revista da Sociedade de Engenharia Sonora). Lang e Goldstein tinham escolhido o nome dele da revista; de repente, Markoff era responsável por arranjar aparelhagem de som para o maior show na Terra. Ele se lembra de uma característica do sistema de som: no volume mais baixo do amplificador, os auto-falantes de Woodstock causavam dor para qualquer um que se encontrasse dentro de 3 metros de distância.
Markoff teve dúvidas sobre a sanidade da aventura até que ele viu o escritório dos promotores em um celeiro na terra de Mills.
– Foi aí que eu vi todas aquelas pessoas naqueles telefones, com um painel de comando – disse Markoff. – Quando eu vi aquilo, eu disse: “Ei, isto realmente poderia acontecer”.

 

Gravando…
Rosenman e Roberts não puderam atrair nenhum dos grandes estúdios de filmagem para filmar seu fim de semana no interior. Então eles conseguiram Michael Wadleigh. Antes de Woodstock, documentação de rock significava poucos ganhos. Um ano antes de Woodstock, Monterey Pop tinha falhado nas bilheterias, fazendo executivos ficarem arrepiados ao pensar em custear um outro filme de rock. Durante o verão de Woodstock, Wadleigh, de 27 anos, estava fazendo sua reputação como cameraman e diretor de filmes independentes. Dois anos mais cedo, ele tinha caído fora da Universidade de Médicos e Cirurgiões, de Columbia, onde ele estava estudando para ser um neurologista. Desde então, ele tinha passado seu tempo filmando nas ruas urbanas, o campo de batalha das lutas culturais dos anos sessenta. Ele tinha filmado Martin Luther King Jr. Ele tinha filmado Bobby Kennedy e George McGovern falando aos americanos de classe média no rastro da campanha de 1968.
Wadleigh estava experimentando com usar rock em seus filmes como um suplemento para os temas sociais e políticos daqueles dias. Ele também estava trabalhando com imagens múltiplas para fazer documentários mais divertidos do que esses que destacam um grupo de cabeças falantes. E então os meninos de Woodstock vieram à sua porta. A idéia deles era irresistível. O dinheiro não era. Wadleigh entrou nessa de qualquer maneira.

Um dia a casa cai…
Goldstein foi sozinho para a primeira reunião do conselho da cidade de Wallkill.
– Isto foi antes de nós sabermos que teríamos problemas – disse ele. – Era provavelmente junho. Nós tínhamos uma casa cheia. Não mais de 150 pessoas. Houve algumas acusações. Alguém fez algumas referências aos jovens, dizendo que eram violentos. O Supervisor de Wallkill, Jack Schlosser, disse que o prefeito Daley saberia lidar com aquilo. Então eu perdi minha paciência. Eu disse não havia nenhuma necessidade de violência e que a reação da polícia causou a violência. Eu disse que Daley dirigia uma das máquinas políticas mais corruptas da história.
Enquanto as reuniões da cidade e as semanas se passavam, a confrontação entre a Ventures e os residentes de Wallkill piorava. O proprietário das terras, Howard Mills, estava recebendo telefonemas anônimos. A polícia foi chamada, mas os culpados nunca foram identificados, muito menos pegos.
– Eles ameaçaram explodir a casa dele – disse Goldstein. – Havia faces vermelhas e temperamentos pegando fogo. Pessoas levadas pelo medo a fazer coisas muito estranhas. Eles elevam suas vozes e dizem coisas estúpidas que nunca diriam normalmente.
Até o dia de hoje, Howard Mills não discute como seus vizinhos se viraram contra ele em 1969.
– Eu sei que é uma parte da história, mas eu não quero me aborrecer com isto – disse Mills.

 

Como Woodstock aconteceu – Parte 2

A Woodstock Ventures definiu o concerto como uma “comunidade temporária para um fim de semana no campo”. Os anúncios foram lançados nos jornais, tanto politicamente corretos quanto underground, e em estações de rádio em Los Angeles, São Francisco, Nova Iorque, Boston, Texas e Washington, D.C. Um ingresso para o concerto também pagava por uma área de acampamento. Mas até mesmo uma comunidade desse tipo requer algum tipo de organização. No fim de junho, Goldstein chamou a Hog Farm.
A Hog Farm começou como uma fazenda de porcos em uma comunidade na Califórnia; seus membros eventualmente compraram terras perto de uma reserva de índios Hopi no Novo México. Seu líder era um hippie magrela e desdentado cujo nome verdadeiro era Hugh Romney. Ele era um beatnick cômico que tinha mudado seu nome para Wavy Gravy e mantinha o título de cara esperto, o “Ministro da Conversa”.
– Nós trouxemos a Hog Farm para ser nossa relação com a multidão – explicou Goldstein. – Nós precisávamos de um grupo específico para ser o exemplo para tudo que se seguiria. Nós acreditávamos que a idéia de dormir ao ar livre debaixo das estrelas seria muito atraente para muitas pessoas, mas nós sabíamos muito bem que o tipo de pessoas que estava vindo nunca tinha dormido debaixo das estrelas em suas vidas. Nós tínhamos que criar uma circunstância na qual elas estariam bem cuidadas.

 

Foi pra conta!
Woodstock foi oficialmente banido de Walkill em 15 de julho de 1969. Sob o aplauso de residentes, membros do conselho disseram que os planos dos organizadores eram incompletos. Eles também disseram que banheiros ao ar livre, como esses que seriam usados no concerto, eram ilegais em Wallkill. Duas semanas antes, o conselho da cidade tinha passado uma lei requerendo uma licença para qualquer ajuntamento de mais de 5.000 pessoas.
– A lei que eles criaram excluía uma coisa e somente uma coisa: Woodstock – disse Al Romm, o então editor de The Times Herald-Record, que foi contra a lei de Wallkill.
O Supervisor Jack Schlosser negou que esta fosse a intenção.
O Conselho de Wallkill pode ter feito um favor à Woodstock Ventures. A publicidade sobre o que tinha acontecido fez acontecer uma chuva de interesse. Além disso, se Woodstock tivesse sido organizado em Wallkill, Lang disse, as vibrações teriam arruinado o show ou o transformariam em uma revolta.
– Eu não queria policiais com máscaras de gás aparecendo, e esta era a atmosfera por lá – disse Lang. – Com todas a tensão ao redor do show, ele não teria dado certo.
Outro membro da Woodstock Ventures, Lee Blumer, lembrou-se das ameaças feitas na cidade: – Eles disseram que iam atirar no primeiro hippie que entrasse na cidade – disse Blumer.

 

CORTA!
A Kodak queria dinheiro vivo, mas a equipe de filmagem não conseguiu nenhum dinheiro adiantado para filmar. Então Wadleigh retirou $50.000 da poupança, tanto da sua conta pessoal quanto de uma conta para seu negócio de filmes independentes. Durante julho, Wadleigh estava fora, em Wyoming, fazendo um filme sobre montanhismo. Quando os promotores perderam o local de Wallkill, Wadleigh se apavorou.
– Eu tinha essa sensação de terror absoluto de que as coisas não iam andar – disse Wadleigh. – Aquela sensação de que alguém poderia nos dar uma rasteira não passava, até que a música começou.

 

A salvação da lavoura…
Elliot Tiber leu sobre Woodstock ter sido jogado para fora de Wallkill. Ele era dono de um hotel em White Lake, o El Monaco, que tinha 80 quartos, quase todos eles vazios, e mantê-lo em funcionamento estava acabando com seu dinheiro. Mas apesar de todas as dificuldades de Tiber, ele tinha uma coisa que era muito valiosa para a Woodstock Ventures. Ele tinha uma permissão da cidade de Bethel para fazer um festival de música.

– Eu acho que ela custou $12 ou $8 ou algo assim – disse Tiber. – Era muito vaga. Apenas dizia que eu tinha permissão para fazer um festival de música e artes. Apenas isso.
A licença era para o Festival de Artes e Música de White Lake, um evento muito, muito pequeno mesmo, que Tiber tinha inventado para aumentar o movimento no hotel.
– Nós tivemos um quarteto de música de câmara, e eu acho que nós cobramos algo como dois dólares por dia – disse ele. – Talvez houvesse 150 pessoas por lá.

Tiber chamou a Ventures, sem nem mesmo saber a quem se dirigir. Lang recebeu a mensagem e foi para o White Lake no dia seguinte, que provavelmente foi 18 de julho, para ver o El Mônaco. O local de festival de Tiber eram 15 acres pantanosos atrás do hotel.
– Michael olhou para aquilo e disse: “Isto não é grande o bastante” – recorda-se Tiber. – Eu disse, “Por que nós não vamos ver meu amigo Max Yasgur? Ele me vende leite e queijo há anos. Ele tem uma grande fazenda lá em Bethel”.
Enquanto Lang esperava, Tiber telefonou para Yasgur e falou sobre alugar o campo por $50 ao dia para um festival que poderia trazer 5.000 pessoas.
– Max me disse: “O que é isso, Elliot? Outro de seus festivais que não dão certo?” – contou Tiber.
Yasgur acabou conhecendo Lang no campo de alfafa. E desta vez, Lang gostou do jeito da terra.
– Era mágico – disse Lang. – Era perfeito. O campo em forma de bacia se inclinando, uma pequena subida para o palco. Um lago ao fundo. O negócio foi fechado ali mesmo no campo. Max e eu estávamos caminhando na subida do campo. Quando nós começamos a falar de negócios, ele estava calculando quanto ele ia perder nesta colheita e quanto ia lhe custar para replantar o campo. Ele era um sujeito afiado, o velho Max, e ele estava calculando tudo com um lápis e papel. Ele ia molhando a ponta do lápis com a língua. Eu me lembro de apertar sua mão, e essa foi a primeira vez em que eu notei que ele tinha só três dedos na mão direita. Mas o aperto dele era como ferro. Ele preparava aquela terra sozinho.
Yasgur era conhecido através do Condado de Sullivan como um homem de palavra e força de vontade. Ele tinha ido para Universidade de Nova Iorque e estudado leis imobiliárias, mas se mudou de volta para a fazenda de leite e derivados da sua família nos anos quarenta. Alguns anos depois, Yasgur vendeu a fazenda em Maplewood e mudou-se para Bethel, a fim de se expandir. Ao longo dos anos cinqüenta e sessenta, Yasgur formou lentamente um rebanho leiteiro. Na época em que Yasgur, um fumante de cachimbo, foi procurado pela Woodstock Ventures, ele era o maior produtor de leite no Condado de Sullivan, e a fazenda tinha rotas de entrega, um volumoso complexo de refrigeração e uma fábrica de pasteurização. Os 600 acres pelos quais a Ventures se interessou eram apenas uma parte da propriedade de Yasgur, que se estendia ao longo de ambos os lados de Rota 17B, em Bethel.

Dias depois de conhecer Yasgur, Lang trouxe o resto do time da Ventures em oito limusines; até isso acontecer, Yasgur já conhecia a Woodstock, e o preço tinha subido consideravelmente. A Woodstock Ventures manteve todas as negociações em segredo, para que não se repetisse o que tinha acontecido em Wallkill. Em algum ponto durante as conversas, Tiber e Lang foram jantar no Ligthouse Restaurant, um restaurante italiano exatamente na Rota 18B, em White Lake. Foi ali que as notícias vazaram.
– Enquanto nós estávamos pagando a conta, o rádio estava ligado no bar. A estação de rádio de lá, a WVOS, anunciou que o festival ia para White Lake – disse Tiber. – Os garçons ou as garçonetes devem ter ligado para a estação de rádio. Nós ficamos exatamente em choque. O bar agora estava vazio. Michael tinha apenas uma expressão vazia. Todos nós entramos em choque.

Em 20 de julho de 1969, o mundo estava falando sobre o primeiro homem a pisar na lua. Mas a conversação em Bethel era sobre esse “festival hippie de Woodstock”.
– Eu estava acostumado a brigas, mas eu não estava pronto para essa – disse Tiber.
Os parceiros da Woodstock admitiram desde então que eles estavam comprometidos com o festival. Eles disseram aos oficiais de Bethel que eles estavam esperando 50.000 pessoas, no máximo. Desde o princípio eles sabiam que Woodstock atrairia muito, muito mais.
– Eu era bem manipulador – disse Lang. – O número em Wallkill era 50.000, e nós apenas o mantivemos. Eu estava planejando umas duzentas e cinqüenta mil pessoas, mas nós não queríamos assustar ninguém.

 

Um pouco de inutilidade…
A fazenda de Ken Kesey, no Oregon, estava infestada de hippies bêbados. Kesey morava em Pleasant Hill, que se tornou a sede para seus Merry Pranksters (Pregadores de Peça Alegres), os criadores dos originais Testes de Ácido em São Francisco. Kesey tinha comprado a fazenda com os ganhos dos seus dois best-sellers, One Flew Over the Cuckoo’s Nest (1962) e Sometimes a Great Notion (1964). A moda do dia era compartilhar, e em partes iguais.
Enquanto os astronautas da Apollo 11 estavam passeando pelo Mar da Tranqüilidade, em 20 de julho, os Pranksters estavam tendo notícias de Wavy Gravy, que eles conheciam dos Testes de Ácido. Os fazendeiros da Hog Farm disseram que eles estavam ganhando $1.700 para reunir tantas pessoas quanto o possível e levá-los para Bethel.
– Kesey estava feliz em se livrar de todo o mundo – disse Ken Babbs, então com 33 anos e o líder do esquadrão dos Pranksters de Woodstock.
Babbs empacotou 40 hippies em cinco ônibus escolares. Um era “O Ônibus”: o que mais tarde tornou-se famoso através do autor Tom Wolfe em The Electric Kool-Aid Acid Test. O Ônibus tinha uma fantasia, um trabalho de pintura psicodélico e uma bolha em cima, e estava cheio de aparelhagem de som. Seu cartaz de destino dizia: “Mais adiante”.
– Enquanto Neil Armstrong estava dando “um salto gigantesco para a humanidade”, nós estávamos começando a dar um salto gigantesco para Woodstock – disse Babbs.

Max Yasgur tinha duas preocupações.
– Ele achava que uma grave injustiça tinha sido feita em Wallkill. E ele queria se assegurar de que ele conseguiria os $75.000 antes que alguma outra fazenda de leite conseguisse – disse Rosenman. – Não exatamente nesta ordem. Eu não estou certo do que era mais importante para ele. Tendo dito isto, eu direi mais sobre o Max: ele nunca nos exigiu um níquel a mais depois que o pagamos. Eu me lembro de que todas as vezes em que nós íamos até lá, Max nos dava uma daquelas caixas de leite achocolatado. Todas as vezes. Nós acabamos com esse monte de caixas de leite pelo escritório.
Contratos pelo uso da terra ao redor da fazenda de Yasgur acabaram custando à Ventures outros $25.000.
– Nós poderíamos ter comprado a terra pelo preço que a alugamos – disse Lang.
Enquanto isso, cartazes escritos à mão estavam sendo colocados na cidade de Bethel. Eles diziam: “Não comprem nenhum leite. Parem o Festival de Música Hippy de Max.”

Lang tinha fixado um teto de $15.000 por qualquer apresentação. Mas a melhor apresentação no país, o guitarrista Jimmi Hendrix, queria mais. Hendrix tinha conseguido $150.000 por um show, naquele verão, na Califórnia. Seu agente estava exigindo o mesmo para ele tocar em Woodstock. Mas, por volta de julho, Lang tinha algum poder também. Ele não precisava de Hendrix para fazer o maior concerto do ano. Se Hendrix quisesse vir, seria bem-vindo.

– Nós pagamos a Jimmi Hendrix $32.000. Ele era a atração principal, e era isso que ele queria – disse Rosenman.
Então a Ventures mentiu sobre os contratos.
– Nós dissemos a todos que isso foi porque ele faria duas apresentações de $16.000 cada. Nós tínhamos de fazer isso, ou The Airplane ia querer mais $12.000.
Lang fixou o calendário para que as apresentações folk como a de Joan Baez fossem feitas na sexta-feira, o dia de abertura. O rock’n’roll foi guardado para sábado e domingo. Mas a apresentação única de Hendrix tinha o tempo todo de ser final. Seu contrato dizia que nenhuma apresentação poderia se seguir à dele.

O novo emprego de Tiber, dono de motel, era ser o porta-voz da Woodstock Ventures, em Bethel. Ele recebeu $5.000 pelo trabalho de poucos meses. Tiber estava ganhando seu dinheiro também.
– As reuniões da cidade nunca atraíram mais que moscas, antes – disse Tiber. – Mas dessa vez tínhamos, talvez, 300 pessoas. Talvez fosse porque Michael estava descalço. Ele saiu do helicóptero sem sapatos. Eu nunca tinha visto nada assim antes, mas esse era o jeito dele ser. Estava tudo bem por mim, mas eu acho que eles não gostaram daquilo.
Os residentes de Bethel tinham lido sobre as preocupações em Wallkill: drogas, tráfego, esgoto e água. A fúria pública cresceu mais uma vez. Um proeminente residente de Bethel contactou Lang. Ele disse que poderia subornar algumas pessoas de poder, e poderia aassegurar que Lang conseguiria as aprovações de que precisava. Tudo o que o “assegurador” queria era $10.000. A Woodstock Ventures arranjou o dinheiro vivo e o pôs em uma bolsa de papel. Lang não diz o nome do homem que solicitou o suborno. Mas no final a Woodstock Ventures não pagou.
– Nós estávamos muito preocupados com carma – disse Lang. – Nós pensamos que se subornássemos alguém, isso estaria errado e nós mudaríamos o modo como as coisas deveriam acontecer.
A sugestão de um suborno pôs em ação o apoio de Yasgur. Lang disse:
– Naquele ponto, ele se tornou realmente um aliado, não só um espectador.
Mas pode ter havido um suborno, de qualquer maneira. Rosenman escreveu em um livro em 1974 que ele emitiu um cheque de $2.500 para um homem que estava exigindo $10.000 para organizar apoio local. Anos depois, Rosenman disse que alguns dos eventos no livro tinham sido exagerados para causar tensão dramática.
– E eu não posso me lembrar honestamente se eu preenchi o cheque ou não – disse Rosenman.
Pelo menos um dos oponentes de Woodstock também foi procurado para acertar o negócio. George Neuhaus era um dos antigos políticos de Bethel, ao velho estilo, entrando e saindo do posto de supervisor da cidade por anos. Ele achava que Woodstock estava sendo empurrado pelas gargantas das pessoas do local que não o queriam. Era julho, e Neuhaus foi procurado por um homem que queria que ele facilitasse as coisas para Woodstock. Neuhaus não quis saber disso. Como Lang, Neuhaus não identificou o homem, mas ambos dão indicações de que era o mesmo indivíduo.
– Não era dinheiro em si, mas ele queria saber se eu poderia mover as coisas – recordou-se Neuhaus. – Eu estava sentado em minha varanda. Eu chutei ele para fora da minha propriedade. Eu não ia ter nada a ver com aquilo.

Bob Dylan era o único dos heróis do rock de Lang que não tinha assinado um contrato. Os promotores tinham pego emprestado algo da místca de Dylan, dando ao concerto o nome da cidade adotada por ele, distante apenas 112 quilômetros de Bethel. A banda que acompanhava Dylan, The Band, já tinha assinado. Lang achou que Dylan aparecer seria natural. Então ele fez a peregrinação ao esconderijo de Dylan no Condado de Ulster.

– Eu fui ver Bob Dylan aproximadamente três semanas antes do festival – disse Lang. – Fui com Bob Dacey, um amigo de Dylan, e nós nos reunimos em sua casa por umas poucas horas. Eu lhe contei o que estávamos fazendo e lhe disse: “Nós amaríamos ter você lá.” Mas ele não veio. Eu não sei o porquê.

 

Finalmente…
No final de julho, a Woodstock Ventures obteve aprovações de licenças do advogado Frederick W.V. Schadt, da Cidade de Bethel e do inspetor de construções Donald Clark. Mas, sob ordens do conselho da cidade, Clark nunca as emitiu. O conselho ordenou que Clark emitisse ordens de interrupção do trabalho; os promotores rasgaram os cartazes com a aprovação de Clark. Ele sentia que estava sendo feito de bode expiatório pela cidade. Schadt disse que o impulso de Woodstock estava acelerando como um trem em fuga.
– Naquele momento, aquilo tinha progredido tanto, que qualquer tipo de ordem de parar teria resultado em caos – disse ele. – Milhares de pessoas chegando inconvenientemente à comunidade. Como seria possível pará-los?

 

Como Woodstock aconteceu – Parte 3

Ken Van Loan, o presidente da Associação Empresarial de Bethel, não estava preocupado. Ele tinha decidido que este festival poderia ser um grande impulso para a economia em depressão.
– Nós falamos ao município sobre promover essa coisa – disse Van Loan. – Nós dissemos a eles que seria a maior coisa que já veio ao município.
Enquanto agosto ia chegando, a Loja Geral de Vassmer em Kauneonga Lake, estava fazendo um grande negócio em barris de pregos e frios. Os compradores eram sujeitos cabeludos de construção que estavam esculpindo o pasto de Yasgur em anfiteatro.
– Eles me disseram: “Sr. Vassmer, você ainda não viu nada”, e caramba, eles estavam certos – disse Vassmer, o dono.
Abe Wagner soube que a pequena Bethel, com uma população de 3.900 almas, não estava firme para lidar com a inundação de humanidade que chegava. Duas semanas antes do festival, Wagner, de 61 anos, ouviu que a Woodstock Ventures já tinha vendido 180.000 ingressos. Wagner, que possuia uma companhia de encanamento e vivia em Kauneonga Lake, era um dos aproximadamente 800 residentes de Bethel que assinaram uma petição para parar o festival.
– As pessoas de Bethel estavam com medo da afluência das pessoas em nossas pequenas estradas, com medo do tipo de pessoas que liam os anúncios nas revistas que diziam: “Venha para Woodstock e faça tudo o que você quiser fazer porque ninguém o aborrecerá” – Wagner disse.
Em agosto, Elliot Tiber estava recebendo telefonemas anônimos.
– Eles diziam que o festival nunca aconteceria, que “nós quebraremos suas pernas” – Tiber disse. – Havia terríveis palavrões. Aquilo era sujo e imundo.
Uma semana antes do festival, a fazenda de Yasgur não se parecia muito com um local de show.
– Parecia que eles estavam construindo uma casa, a não ser por haver uma pista de pouso de helicópteros – disse Vassmer.
Vassmer tinha ouvido a conversa nervosa entre seus clientes regulares, especialmente quando eles ouviam os anúncios de rádio.
– Eles diziam: “Rapaz, quando esta coisa chegar, nós ficaremos arrependidos”.
Naquela mesma semana, um grupo de residentes enfurecidos entrou com um processo. Tudo foi acertado dentro de alguns dias; os promotores prometeram adicionar mais banheiros portáteis.
– Havia muita intriga – disse Lang. – Eu não me lembro de tudo.
Esses 800 solicitantes não estavam muito contentes com o supervisor de Bethel Daniel J. Amatucci.
– Ele não nos informou sobre todas as pessoas até uma semana antes do festival – lembrou-se Wagner. – Ele se virou e lançou a petição na cesta de lixo sem nem mesmo olhar para ela – protestou Wagner.
Amatucci a leu. E disse que era tarde demais.

 

Michael Lang passou com uma motocicleta BSA brilhante por um campo de grama. Ele usava um colete de couro sem camisa por baixo, uma bolsa pendurada até seu quadril e um cigarro na boca. Era o início de agosto de 1969, e Lang comandava um exército de trabalhadores que montava o show de rock. Um cineasta apareceu para fazer a Lang algumas perguntas, congelando Lang, sua motocicleta e a sua atitude para sempre em um momento de filme que captura o desafio descuidado da juventude.
– Para onde você vai daqui? – o entrevistador perguntou. – Você vai fazer outro?
– Se funcionar – respondeu Lang.
A Ventures decidiu tentar ganhar os residentes em Bethel. Enviou o Earthlight Theater para entreter grupos locais. Reservou uma banda de rock chamada Quill para fazer performances de graça. Mas Earthlight, uma companhia de artistas com 16 membros, não interpretava Shakespeare ou Rodgers e Hammerstein. Eles faziam uma comédia musical chamada Sexo: vocês todos virão. Eles também tiravam as roupas e ficavam nus. freqüentemente.
Em 7 de agosto, a Ventures organizou um festival pré-festival em um palco que ainda estava em obras. O Quill abriu o espetáculo, e os residentes de Bethel se sentaram na grama esperando por teatro. Ao invés disso, o Earthlight Theater se despiu e gritou obscenidades para a multidão chocada.
– Eles passaram da suspeita à certeza – disse Rosenman.

 

Wavy Gravy reuniu 85 fazendeiros da Hog Farm e 15 Hopis, e então, ele e os fazendeiros descalços e de cabelos longos da Hog Farm, voaram para o Aeroporto Internacional John F. Kennedy.
– Nós somos a polícia hippie – Gravy anunciou, enquanto ele e a sua companhia descia do avião na segunda-feira, 11 de agosto.
A oposição bolou uma estratégia de última hora para parar o show: uma barricada humana através da Rota 17B no dia anterior ao concerto. Tiber ouviu falar do plano na segunda-feira.
– Então, eu fui em rede nacional de rádio e disse que eles estavam tentando parar o show – disse ele. – Eu não dormi bem. Aproximadamente às duas da manhã, eu desperto e ouço cornetas e violões, era terça-feira pela manhã. Eu olho para fora, e há cinco pistas de faróis por todo o caminho. Eles já tinham começado a vir.
Kornfeld fez para à Warner Brothers uma oferta que não puderam recusar. Era quarta-feira, dois dias antes do show. A Ventures tinha de fazer um acordo de um filme… agora. Tudo o que Kornfeld queria era $100.000 para pagar o filme. O show se encarregaria da ação, da iluminação, do diálogo e do enredo.
– Michael Wadleigh estava lá esperando com (Martin) Scorsese – disse Kornfeld. – Tudo de que eles precisavam era dinheiro para filme. O contrato era manuscrito e assinado por eu mesmo e Ted Ashley (da Warner Brothers). Eu disse a eles: “Ei, caras, vão haver centenas de milhares de pessoas lá fora. É um tiro certo: gaste $100.000 e você pode fazer milhões. Se isso virar uma revolta, então você ainda terá um dos melhores documentários já feitos.”
Wadleigh reuniu uma equipe de cerca de 100 pessoas da área cinematográfica de Nova Iorque, inclusive Scorsese. Wadleigh não os pôde pagar até muito mais tarde, mas ele pôde colocá-los dentro do evento do verão. A equipe assinou numa base de “o dobro ou nada”. Se o filme fizesse sucesso, eles receberiam o dobro do pagamento normal. Se o filme virasse uma bomba, eles perderiam. A equipe chegou a Woodstock alguns dias antes, chegando em fuscas e carros velhos. O enredo de Wadleigh corria assim: Woodstock seria um dos Contos da Cantuária moderno, uma peregrinação de volta à terra. Ele queria que o filme fosse tanto sobre os hippies que viajaram até Woodstock quanto sobre a música no palco. Ele queria as histórias das pessoas jovens, suas sensações sobre a Guerra do Vietnam, sobre os tempos. As histórias das pessoas da cidade. Elas fariam o filme, não somente a música.

 

A oito milhas de distância, John Szefc, repórter de corridas de cavalos do Times Herald-Record, estava trabalhando em uma história de destaque na pista de corridas de Monticello. Então ele teve um vislumbre do tráfego na Rota 17B. Eram 11:00 da manhã, mais de 24 horas antes do concerto, e o tráfego já estava parado por todo o caminho da Rota 17B até a Rota 17 – uma distância de 16 quilômetros.
– Foi quando eu soube que aquilo ia ser grande. Realmente significante – disse ele.
A história de Szefc naquela noite foi sobre o efeito do show na pista de corridas.
Alguns apostadores lutaram contra o tráfego na Rota 17B e conseguiram chegar ao guichê de apostas. Mas as apostas estavam pagando $60.000 a menos para uma noite de fim de semana típica de agosto.
Pela tarde de quinta-feira, 14 de agosto, Woodstock era uma comunidade de 25.000 pessoas. Os fazendeiros da Hog Farm tinham construído cozinhas e abrigos com madeira e lona. Wavy Gravy recrutou pessoas de “aparência responsável” e fez deles guardas de segurança. Ele distribuiu braçadeiras e a senha secreta, que era “eu esqueço”. Ladeira abaixo, barracas estavam prontas para vender lembranças contraculturais: cintos tecidos a mão, parafernálias de drogas e faixas para a cabeça. Lâmpadas de árvores de Natal foram penduradas nas árvores. Serragem foi espalhada ao longo dos caminhos. Em cima da colina, carpinteiros ainda estavam batendo pregos no palco principal. Os Pranksters e os fazendeiros da Hog Farm tinham construído seu próprio palco alternativo.
Babbs, o líder Prankster, agiu como mestre de cerimônias, abrindo o palco a qualquer um que quisesse participar. O sistema de som era um amplificador emprestado pelo Grateful Dead.
– Por cima da colina e pelos bosques nós entramos – disse Babbs. – Nós tínhamos a Cozinha Livre e o Palco Livre.

 

Woodstock – Sexta-feira

O cheiro doce de maconha flutuava para dentro das janelas abertas das casas em Bethel, tarde da noite, na quinta-feira. O zumbido dos insetos de repente deu lugar ao arrastar de pés com sandálias.
– Parecia uma parada – disse o homem que vivia lá.
O jovem casal de Bethel vivia a quatrocentos metros do campo de Yasgur. A esposa, com 22 anos, estava grávida da segunda criança do casal, e o marido, de 27 anos, um vendedor, tinha uma importante reunião empresarial em Albany na sexta-feira pela manhã. Mas o casal não sairia de Bethel. Quando eles despertaram no primeiro dos três dias de paz e música, eles deram uma olhada em frente à casa:
– Nada a não ser carros e pessoas. Vi um policial. Dez crianças estavam no capô do seu carro – disse o marido. – Pessoas estavam acampando pelo jardim todo.
O produtor Lang despertou na sexta-feira pela manhã para descobrir que algo estava faltando: os guichês de bilheteria. Outras pessoas já sabiam há dias, mas Lang disse que na sexta-feira pela manhã foi sua primeira percepção de que Woodstock nunca arrecadaria um único dólar no portão.
– Os ingressos estavam sendo preparados no escritório – disse Lang. – Eu apenas assumi que eles estavam preparando as bilheterias, mas elas nunca foram postas no lugar.

 

Van Loanntinha sido contratado dois dias antes do festival para rebocar aproximadamente duas dúzias de guichês de bilheteria para suas posições.
– Tudo o que nós conseguimos mover foram dois ou três – recordou-se Van Loan. – Cada um que nós movíamos levava mais e mais tempo. Havia muitas pessoas e carros e barracas abandonadas (desocupadas) bloqueando o caminho.
Abbie Hoffman era o chefe dos Yippies – o Youth International Party (Partido Internacional da Juventude), a irreverente organização de esquerda fundada por Hoffman, Jerry Rubin, Paul Krassner e Ed Sanders, da Woodstock. Hoffman convenceu os produtores do festival a doar $10.000 aos Yippies – principalmente ameaçando romper os procedimentos. Eles queriam o dinheiro para fundar vários projetos de comunidade, incluindo lojas da Cidade de Nova Iorque que eles alugaram para abrigar fugitivos, e fundos de defesa que eles estabeleceram para os “politicamente oprimidos”.
Junto com os fazendeiros da Hog Farm e outros grupos inclinados para a esquerda, os Yippies montaram a Cidade do Movimento, seu festival-dentro-do-festival, a mais ou menos quatrocentos metros do palco. Dias antes do festival, Hoffman e seu tenente, Krassner, mimeografaram milhares de panfletos incitando os que compareceram a não pagar. Claro que esse assunto tornou-se supérfluo assim que a cerca caiu. Krassner diria depois que todas as tentativas para politizar os três dias de paz e amor tinham se evaporado.

 

Três ônibus escolares rodaram para a fazenda de Yasgur no fim da manhã de sexta-feira e estacionaram perto do quartel-general da Ventures, do playground e da Barraca de Horrores, na Estrada West Shore. Dentro estavam mais de 100 policiais da Cidade de Nova Iorque escolhidos a dedo pela produção do concerto pelas suas atitudes tranqüilas e sua esperteza nas ruas.
Nos dias antes do concerto, o departamento de polícia da cidade tinha dito a seus membros que não sancionaria nenhum trabalho em Woodstock. Tinham sido prometidos aos policiais $50 por dia. Mas quando os oficiais chegaram a Bethel, uma advertência mais estrita os esperava.
– A mensagem era algo no efeito de: “Se vocês participarem nisso, poderão estar sujeitos à censura do departamento de polícia” – Feldman disse. – Assim, eles deram meia-volta, entraram no ônibus e voltaram para a cidade de Nova Iorque.
Muitos ficaram para trabalhar com nomes falsos. Mas eles exigiram que a Woodstock Ventures aumentasse seu pagamento para $90 ao dia. A Ventures pagou.
– Nós tínhamos oito ou nove sujeitos na folha de pagamento, com nomes como Mickey Mouse e outras coisas parecidas – disse Arthur Schubert, garçom no Concord Hotel e um dos diretores da força de segurança.

 

Pé na estrada…
Melanie Safka iria cantar; então, ela e a mãe entraram no seu Pontiac Bonneville e foram na direção do interior do estado. Quando elas viraram para pegar a Rota 17, notaram o engarrafamento. Quando Melanie ligou para os produtores do festival, eles disseram: sim, o tráfego intenso era por causa do show, então era melhor ela ir para um hotel, de onde eles a levariam de helicóptero para o local do festival. Naquele hotel, cujo nome e localização Melanie não se recorda, ela viu uma porção de câmeras de TV focalizando Janis Joplin e sua garrafa de Southern Comfort.
– E eu? – diz Melanie. – Eu era apenas uma poeira.

 

Fred W. Cannock, investigador da polícia estadual, de 34 anos, deveria direcionar o tráfego na interseção da Rota 55 e da Rota 17B em White Lake. Mas carros estacionados não precisavam de muito direcionamento.
– Eu apenas fiquei lá e olhei para o fiasco – disse Cannock. – A Rota 17B estava engarrafada por uns 14 quilômetros e meio, até Monticello, e além.

 

Os organizadores de Woodstock culparam a polícia do estado pelo monstruoso engarrafamento. Os policiais tinham se recusado a pôr em ação o plano de tráfego do festival.
– Eu sei de que modo os policiais pensam, e eu acho que eles calcularam que se tivessem posto o plano em ação, seriam responsáveis por tudo o que pudesse acontecer – disse Goldstein. – Claro que eles não eram necessariamente a favor desse tipo de evento, e queriam que aquilo virasse um caos. Eles queriam que aquilo fosse um desastre.
Os organizadores de Woodstock queriam que os carros saíssem da estrada e fossem direcionados pelos policiais da NYPD a estacionamentos em campos fora da Rota 17B. Na terça-feira, Goldstein tinha pedido à polícia do estado para ajudar, pelo menos começando o procedimento. Os chefes da polícia do estado mandaram policiais adicionais para direcionar o tráfego. Os oficiais da defesa civil local se recusaram a esperar que um desastre pudesse acontecer; seu escritório estava fechado na tarde de sexta-feira, enquanto o tráfego entrava no local. Assim, o trânsito parou por quilômetros, enquanto a polícia olhava.
– De repente, nós estávamos em um pesadelo – disse Goldstein.
Isso não significava que alguns policiais não simpatizassem com as pessoas tentando chegar desajeitadamente ao festival.
– Eu achava que eles eram escória hippie. Mas não se podia fazer nada a não ser sentir pena dos garotos – disse Cannock. – Eles foram atraídos por essa carta branca para fazer o que quisessem. Ninguém disse qualquer coisa sobre reservas, ingressos. Eles simplesmente vieram. Não podíamos acreditar nisso. Após as vendas de antemão terem sido pagas, ninguém mais pagou um níquel. Eles pagaram com dor, fome e exposição ao tempo, ou o que quer que acontecesse.

 

No ar…
Wadleigh alugou quartos em um motel local, o Silver Spur, para a equipe de filmagem e o equipamento. A equipe naturalmente apelidou o lugar de Silver Sperm (Esperma Prateado). Então as multidões vieram. Eles deixaram carros no meio da estrada. A equipe e suas câmeras ficaram presas. Eles acabaram dormindo no campo, debaixo do palco, onde quer que conseguissem.
A força de segurança de Woodstock ouviu uma palestra no fim daquela manhã, feita justamente pelo Babbs, o líder dos Pranksters. Babbs era um dos viajantes de ácido mais experientes.
– Eu imagino que eles me arranjaram para fazer isso porque eu estava na Marinha – disse Babbs. – Eu lhes disse que se alguém estivesse atormentando outra pessoa, então eles deveriam ajudar a pessoa que estava em dificuldades. “Mantenham um olho aberto nas pessoas que precisarem de ajuda”. Fora isso, não era da conta de ninguém o que eles fizessem. Eles perguntaram sobre drogas, e eu lhes disse que não preocupassem sobre isto. Eu disse: “Vai ter tanta droga por aí, vocês não vão ser capazes de tomar conta disso.”
Por volta do meio-dia, Babbs e Wavy Gravy olhavam enquanto uma dúzia de caras de jaquetas laranja começaram a subir a colina.
Eles levavam caixas registradoras e estavam se aproximando da borda da cerca.
– Eles disseram: “Nós somos os vendedores de ingresso, e agora nós queremos que todo mundo caminhe para fora e volte pagando” – Eu disse: “Cara, você tem que estar de gozação. Tem 200.000 pessoas lá dentro.” Então, o chefe de segurança me diz: “Não tem nenhum jeito de conseguirmos esses ingressos. O que você quer fazer?” Havia uma seção de cerca que estava aberta para o portão. Então, Wavy e eu dissemos que a única coisa a fazer era botar abaixo a cerca. Assim, nós, Wavy e eu, desenrolamos a cerca aproximadamente 3 metros, e as pessoas todas vieram para dentro.
Schubert disse que suas forças de segurança não tiveram nenhuma escolha.
– Como se pode dizer a 200.000 ou 400.000 pessoas: “Vão para casa, está tudo terminado?” – disse ele. – Teria sido a revolta do século.
Mas a multidão mais próxima do palco não pôde ver a repentina cerimônia de retirada do portão. De lá, parecia que a turba estava tomando o controle de tudo.
– Minha lembrança mais vívida era que havia essa cerca, feita com correntes, que cercava tudo ao redor – disse Bert Feldman, que estava trabalhando na segurança na colina, perto da base da Hog Farm. – Eu tive a assustadora sensação de que havia 500 milhões de pessoas lá. De repente, a cerca não existia mais. Pisoteada na lama. Desapareceu como por magia.
Lang disse que ele nunca decidiu exatamente que Woodstock se tornaria um espetáculo gratuito. Mas ele decidiu anunciar isso.
– Foi uma forma de declarar o óbvio – disse ele.

 

Reclamações estavam chegando ao Governador Nelson Rockefeller em Albany. Rosenman e Roberts insinuaram que um decreto de calamidade pública em Bethel poderia receber boas-vindas, para aliviar o sofrimento da multidão e porque limitaria a responsabilidade da companhia em processos. Mas os outros sócios temeram que isso pudesse trazer a Guarda Nacional e a possibilidade de uma confrontação armada. Policiais extras, incluindo 20 oficiais do Condado de Rockland, montados a cavalo, já tinham sido trazidos. Mas o governador não considerava Woodstock um ato de Deus. Ele não fez nenhuma declaração.
– Nós tocaremos de ouvido – disse o porta-voz do governador à Imprensa.
Os residentes do Condado de Sullivan ouviram dizer que os garotos não tinham bastante comida lá em Bethel. Por volta da tarde de sexta-feira, membros do Centro de Comunidade Judaica de Monticello estavam fazendo sanduíches com 200 pães, 18 quilos de frios e dois galões de pickles. A Woodstock Ventures calculou que precisariam da doação de 750.000 sanduíches.

 

Mas, e a música?
O dia Um de Woodstock devia ser o dia da música folk. Joan Baez era a atração principal, precedida por uma turma que incluia Tim Hardin, Arlo Guthrie, Sweetwater, The Incredible String Band, Ravi Shankar, Bert Sommer e Melanie Safka. Uma atração de rock, Sly and the Family Stone, foi adicionada para que se sentisse um gosto do rock’n’roll do fim de semana. A hora marcada para o início era as 16:00. Os artistas estavam esparramados ao redor em Holiday Inns ou Howard Johnsons, a quilômetros do local. Por causa do engarrafamento, os promotores estavam contratando helicópteros para trazer os artistas e materiais. Mas os helicópteros estavam atrasados. Um de quatro lugares finalmente chegou depois das 16:00; ele só pôde trazer poucas pessoas, não bandas. Lang tinha duas escolhas: Hardin, que estava andando ao redor nos bastidores bêbado ou drogado, ou Richie Havens, que parecia pronto.
– Era o caso de: “Quem poderia arrumar tudo mais rápido?” – disse Lang. – E eu fiquei com Richie Havens.
Os três dias de música começaram às 17:07, horário de verão, do dia 15 de agosto de 1969.

 

Toda vez que Richie Havens tentava parar de tocar, ele tinha de continuar. As outras atrações não tinham chegado ainda. Finalmente, depois de Havens ter tocado durante quase três horas, improvisando sua última canção, Freedom, um grande helicóptero do exército norte-americano aterrissou com reforços musicais.
Um helicóptero do exército?
– Sim, – disse Havens – era o único helicóptero disponível. Se não fosse pelo exército norte-americano, Woodstock poderia não ter acontecido.

 

O Exército norte-americano salvou o dia para uma multidão que era, na maior parte, anti-guerra.

 

Grana…
De dinheiro na mão, Art Vassmer passou em seu barco pelo Lago Branco, indo para o banco nacional do Condado de Sullivan. Ele foi o único cliente do banco naquele dia. Vassmer temia que os ladrões levassem todo o dinheiro que a loja estava recolhendo da venda de cerveja, refrigerante, e geléia. Mas as preocupações de Vassmer eram infundadas.
– Os fazendeiros da Hog Farm mantiveram a paz – disse ele. – Eles estavam sujos, mas eles eram agradáveis. Alguns estavam alegremente drogados, mas, ora, isso não era nada.
Vassmer aumentou só um preço na sua loja inteira. A cerveja estava a $2, um pacote de seis, em vez de $1.95.
– Me cansei de fazer mudanças – disse Vassmer, que até mesmo trocou umas duas dúzias de cheques para alguns garotos que ficaram sem dinheiro. Nenhum deles era sem fundos.

 

Enquanto os helicópteros voavam para a fazenda de Yasgur, Melanie ficou sentada no salão de entrada do motel conversando com sua mãe. Quando foi a sua vez de voar, sua mãe não foi admitida com ela, embora Melanie argumentasse: “Mas ela é minha mãe”. A Sra. Safka dirigiu de volta para Nova Jersey. Melanie voou para Bethel.
Bert Feldman, o historiador da cidade, de repente era o censor de Woodstock. Seu trabalho era impedir que a nudez frontal aparecesse na televisão nacional. Ele ficava entre o laguinho e as câmeras de televisão e lembrava ao povo para se cobrir. A temperatura da tarde estava por volta dos 300 C.
– Eles tinham de estar usando apenas um ou dois artigos de vestuário, dependendo do sexo – disse Feldman. – Nunca se viu uma briga por lá. Podiam discutir, é claro, e isso era porque todo mundo estava drogado.
As outras atrações ainda não estavam prontas. Os organizadores de palco sabiam que eles tinham que matar tempo. A Nação de Woodstock poderia ficar inquieta se a música parasse. O mestre de cerimônias, Chip Monck, pegou o Country Joe McDonald, amarrou um violão acústico nele e o empurrou para o palco. O curto espetáculo de McDonald incluiu o impublicável e improvisado Fish Cheer e I-Feel-Like-I’m-Fixin’-To-Die Rag. Depois de Country Joe, Monck localizou John Sebastian, o ex-vocalista e guitarrista da Lovin’ Spoonful. Sebastian, vestido em um tie-dye coloridíssimo, estava tropeçando em alguma substância não identificada.
Ele nem mesmo tinha sido convidado para tocar no festival. Ele recorda-se de que ficou “muito surpreso para dizer não”. A performance de palco de Sebastian era quase uma paródia de conversa de hippies, principalmente por causa do seu estado psicodélico. Mas a multidão rugiu com aprovação.
– Apenas amem todo o mundo em volta de vocês e catem um pouco de lixo enquanto estiverem indo embora – Sebastian disse à multidão.

 

Melanie Safka era tão desconhecida que nem mesmo tinha um crachá de artista. Então, quando foi o momento dela subir ao palco, ela teve de provar quem era mostrando sua carteira de motorista e cantando Beautiful people. Ela foi conduzida nos bastidores para seu “camarim”, que de fato era uma barraca do tipo tenda indígena. Quando ela percebeu que estaria tocando para uma multidão do tamanho de Boston, ela ficou tão assustada, que desenvolveu uma tosse nervosa que “soava como uma serra elétrica”. A tosse era tão alta, que alguém na barraca vizinha lhe enviou uma xícara de chá calmante. Aquela vizinha era Joan Baez.
A equipe de filmagem não tinha uma quantidade de filme sequer próxima da necessária para filmar todas as performances de Woodstock. Então, Wadleigh tentou compensar isso conseguindo listas das músicas dos artistas e a ordem na qual eles as cantariam. Wadleigh queria filmar as músicas de anti-guerra, as músicas que falavam sobre as fendas na sociedade, e negligenciou as canções de amor.
Mas os músicos estavam ficando drogados ou bêbados nos bastidores. No momento em que eles subiam ao palco, quebravam a ordem das músicas e tocavam o que viesse à mente. Eis o porquê das câmeras nunca terem registrado as primeiras duas letras de Fish Cheer. Wadleigh estava com a câmera central, em frente ao palco. Quando Country Joe McDonald saiu gritando “me dêem um F”, agitando a multidão com saudações anti-Vietnã, Wadleight estava carregando sua câmera e concertando um pequeno problema.
– Eu estava trabalhando feito louco, para botar minha câmera em funcionamento – disse Wadleigh. – Por isso é que não o vemos durante os primeiros dois minutos, mais ou menos, no filme. Apenas o ouvimos. Eu o peguei na câmera mais tarde. Alguém deveria lhe dar um prêmio por aquela música. Ela é uma das maiores músicas de guerra que existem.

 

Havens voou de volta para Liberty no helicóptero. Então, ele saltou em seu carro e dirigiu de volta ao Aeroporto Internacional de Newark, onde ele pegou um avião para outro show em Michigan na noite seguinte. Havens diz que a ida de carro para Nova Jersey foi quase tão incrível quanto a viagem de helicóptero ao festival.
– Eu era a única pessoa na auto-estrada de Nova York indo para o sul – disse Havens.
De todos as atrações na sexta-feira à noite, os produtores de Woodstock estavam preocupados somente com Sly and the Family Stone. A banda de rock-soul tinha uma tendência de incendiar multidões pequenas, convidando as pessoas a invadir o palco. Com umas duzentas mil pessoas, Sly e sua banda poderiam disparar uma revolta. Assim, Kornfeld abriu uma área na frente do palco, para dar à segurança uma chance de brigar. Então, ele e a esposa, Linda, desceram, totalmente sós no vasto abismo entre os músicos no palco e a multidão.
– Ele estava cantando: “Eu quero levar vocês mais alto!” e todo o mundo acendeu isqueiros, alguma coisa. Todas aquelas luzes na multidão, milhares delas – disse Kornfeld. – Nós estávamos exatamente entre Sly e a multidão.

 

Tempinho… Os chuviscos começaram ao redor da meia-noite, enquanto Ravi Shankar tocava cítara. A voz angelical de Bert Sommer lhe rendeu aplausos de pé. Por volta do momento em que Joan Baez estava terminando We Shall Overcome, um temporal morno estava caindo na fazenda de Yasgur. No espaço de umas três horas, nove centímetros de chuva tinham desabado.

 

O tíquete de lanche dizia “Comida por Amor”. Mas Georgeie Sievers, de Toronto, 25 anos, pagou um preço de qualquer maneira.
– Nós esperamos por uma hora, e conseguimos um cachorro quente frio em um pão de hambúrguer – recordou ela.
Comida por Amor era a comida grátis, a princípio para aqueles dentro do festival. O coordenador de acampamentos, Goldstein, havia preparado duas operações para a comida: Comida por Amor, para aqueles que tinham tíquetes, e a Cozinha Livre, para aqueles do lado de fora da cerca. Desde o início a Comida por Amor sofreu com a falta de organização. O sistema de tíquetes era falho, e os jovens distribuidores de comida começaram a doar os cachorros-quentes e hambúrgueres, no espírito da ocasião.
Um caminhão da Comida por Amor ficou preso no trânsito, em frente à casa de Abe Wagner, a mais ou menos oito quilômetros ao nordeste do local do festival. Então, o caminhão foi saqueado.
– Um dos garotos entrou, e então eles começaram a jogar a comida estrada afora, o pão, as salsichas – disse Wagner.
Mais tarde, quando fregueses famintos correram para as barracas da Comida por Amor, o sistema se desintegrou.

 

– Começou a chover, e a coisa ficou feia – disse Helen Graham, que aos 41 anos era uma funcionária sênior da Comida por Amor. – Eram 2:00 da madrugada, e eu gritava: “Joan Baez está tocando, Joan Baez está tocando!” Eu queria tirar os adolescentes da barraca. Mas eles só queriam ficar me olhando.
A Senhora Graham se descobriu presa na fazenda de Yasgur, porque seu carro estava cercado. Ela queria sair da Nação Woodstock.
– Aquele não era o meu tipo de cultura. Não era o meu tipo de criação. Não era o meu tipo de experiência – disse ela. – De certa forma, eu apaguei da minha mente o que aconteceu. Foi uma experiência apavorante. Eu não vi a paz e o amor. Eu vi uma multidão assustadora, e não entendia o que estava acontecendo.
O riacho atrás da barraca de Gery Krewson estava subindo. A música parou, e o grupo saiu às 3:00 da madrugada para cavar uma trincheira.
– A água estava correndo em torrentes – disse ele.
Em segundos de chuva, o festival se tornou um pântano escorregadio pontilhado de poças. A chuva batia na fazenda de Yasgur e encharcava os fãs, incluindo 19 pessoas que se espremeram na barraca de Krewson, buscando abrigo contra a tempestade.
– Quando eu cheguei lá, as coisas estavam em alguma ordem, pelo menos – disse Krewson. – A partir do momento em que chegou a tempestade, não havia nenhuma ordem, nenhuma segurança, nenhuma sensação do que estava acontecendo ou de quem mandava ali.

 

Melanie Safka enfrentou um terror completo: meio um milhão de pessoas em plena tempestade.
– Essa foi a única experiência fora-do-corpo da minha vida – disse ela. – Eu apenas me via no palco cantando as músicas, mas eu não estava lá.
E então, enquanto a chuva caía, dezenas de milhares de fãs acenderam velas na escuridão. Gery Krewson, com dezesseis anos, seu irmão e três amigos acamparam a 46 metros do palco. Eles tinham chegado na quarta-feira pela noite de Tunkhannock, PA, em um furgão psicodélico. Mas o seu local de acampamento parecia estar perdido na distância. Um mar das pessoas rolava entre eles.

 

Woodstock – Sábado

Mary Sanderson subiu a bordo do helicóptero ao amanhecer do sábado. As pás do helicóptero cortaram o ar, e o pavimento do Aeroporto do Condado de Orange se afastou. O helicóptero alçou vôo para Bethel em meio a uma chuva de granizo. Pouco antes de chegar, raios de sol atravessaram um buraco nas nuvens. Para a enfermeira de 40 anos de idade, moradora de Middletown, aquela parecia uma cena de um épico bíblico.
– Quando você está em um helicóptero, os raios do sol caindo sobre 500.000 pessoas, aquilo se parece com as multidões – disse a Sra. Sanderson. – Simplesmente não se pode imaginar a cena. Não se pode entender como pareciam todas as pessoas naquele sol.
A Sra. Sanderson tinha sido escalada para dirigir-se ao festival a fim de trabalhar no turno de sábado à noite. Mas os organizadores de Woodstock a tinham chamado na sexta-feira cedo. Eles disseram que o festival tinha submergido em casos de emergência. A Ventures enviaria um helicóptero para ela e qualquer outra enfermeira que ela pudesse recrutar.
Quando ela chegou, o Dr. William Abruzzi, diretor médico do festival, colocou-a imediatamente no comando da barraca médica recentemente erguida. Do lado de fora, um homem estava vendendo sua própria marca de medicamento.

 

– Ele estava gritando: “Mescalina! Um dólar! Mescalina! Um dólar!” o dia todo – disse a Enfermeira Sanderson.
Os Promotores decidiram logo que seria crucial para o controle da massa que a música nunca parasse, especialmente depois de escuridão. A música deveria começar às 19:00 no sábado e continuar até a meia-noite. Mas depois que a multidão encheu o local na sexta-feira, a estratégia dos promotores mudou. Eles precisavam de mais música e decidiram que as apresentações deveriam começar mais tarde e deveriam continuar até o amanhecer.
O programa de sábado incluía rock’n’roll alto, hard: The Who, Jefferson Airplane, Janis Joplin, Creedence Clearwater Revival, Grateful Dead, Canned Heat, Mountain e Santana. Os promotores se preocuparam com o fato de que quanto mais alta a música, mais selvagem poderia ficar a multidão. Mas se eles não fossem bem entretidos, algumas centenas de milhares de fãs chateados poderiam provocar algum dano. Lang e os outros organizadores imploraram às atrações de sábado para tocar o dobro do tempo. A maioria estava disposta. Era a maior audiência da história; a freqüência foi calculada em 250.000 aquela manhã.

 

A lama cheirava a haxixe a seis centímetros de profundidade. Sacos de dormir encharcados foram sacudidos para se livrar de celofane, guimbas de cigarro e roupas descartadas. A água da chuva estava evaporando em direção ao céu, cobrindo milhares de garotos adormecidos com uma névoa fantástica. Gery Krewson viu o trator estrondejando em cima da colina e “arando” uma pilha de lixo ensopado e sacos de dormir.
O trator ia rebocando um tanque para levar o esgoto dos banheiros portáteis. Mas debaixo daquela massa dormia alguém com 17 anos de idade, de South Jersey, chamado Raymond Mizak. Seu saco de dormir estava em cima de sua cabeça para evitar a chuva. O trator passou por cima dele lentamente. Krewson e cinco outros correram para a colina e ajudaram a carregar Mizak para uma ambulância. Até o helicóptero chegar, Mizak estava morto.
– Eu não acho que ele chegou a sentir qualquer coisa. Ele estava dormindo – disse Krewson.
Richard Barley estava subindo a colina segundos após o acidente.
– Ele tinha uma manta em cima dele – disse Barley. – Algumas garotas estavam lá, chorando.

 

Eileen Fuentes, uma estudante de segundo grau de 17 anos, da Forest Hills High School, tinha sido recrutada para dirigir um posto de concessão independente no festival. Ela vendia equipamento da contracultura: cartazes, clipes e bottons. Mas Fuentes descobriu, no sábado, que o verdadeiro mercado estava nas capas de chuva. Ela se arriscou nas multidões, achou um canto perto do palco, e vendeu as capas que seu chefe tinha empacotado por via das dúvidas. Dentro de uma hora, tinham sido vendidas centenas de capas por $5 cada.
– Eu voltei para pegar mais, mas não tínhamos mais nenhuma – disse ela.

 

Ácido…
“A-RA-NHAS!” o sujeito gritava. A Barraca de Horrores teve sua primeira paciente. A enfermeira Sanderson não estava certa quanto ao que fazer com as infestações psíquicas de aranhas. Os fazendeiros da Hog Farm tratavam as viagens ruins de ácido com carinhos físicos e palavras suaves. Ela decidiu fazer o mesmo.
– Aprendia-se de uma forma danada de rápida – disse ela. – Temos que lhes dar algum toque com a realidade. Tínhamos de falar suavemente.
A Sra. Sanderson quis trabalhar no festival para aprender a tratar as novas doenças associadas com a cultura da aceitação da droga. A Woodstock Ventures tinha oferecido ajudar no treinamento de pessoal médico, e estava oferecendo bons pagamentos, $50 ao dia, para enfermeiras. Mas não havia muitos interessados. O corpo médico local era preconceituoso quanto a ser associado com o controverso evento, disse a Sra. Sanderson.
Os médicos tinham trazido uma garrafa de Thorazine, uma droga anti-psicótica, para contrabalançar quimicamente viagens ruins. Mas os “viajantes” experimentados informaram que Thorazine enviaria um usuário de droga a um choque imediato, e conduziria a problemas psicológicos a longo prazo. O consenso na Hog Farm era que Thorazine realmente era uma viagem muito ruim.
– Nós deixamos a Thorazine debaixo da mesa, e eu acho que alguém a roubou – disse a Sra. Sanderson.
Ela dividiu a lona de circo em três áreas, para tratar as vítimas que chegavam. A mais famosa era a área para os que estavam experimentando os sintomas imaginários de viagens ruins. A segunda, a maior, era para pessoas com pés cortados. Vidro quebrado e lacres de latas cortaram centenas de pessoas.
– Seus pés eram cortados em tiras – disse ela. – Nós os sentávamos, e púnhamos seus pés numa tigela de água limpa com desinfetante.
A terceira área era para pessoas com um mal peculiar a Woodstock.
– Eles tinham queimado os olhos encarando o sol – disse a Sra. Sanderson. – Se eles tropeçavam, eles ficavam caídos de costas, olhando fixo. Havia cinco ou seis ou sete de cada vez. Isso era significativo.

 

O pedaço brilhante de chapa estava próximo ao pneu de borracha preta do carro da polícia do estado. Leo O’Mara, com 18 anos, de Clintondale, calculou que havia haxixe na chapa, pegou-a e continuou caminhando, passando pelo policial enquanto seguia os carros abandonados ao longo da Rota 17, pelo que provavelmente dava uns 32 quilômetros. O’Mara abriu a chapa e achou 29 tabletes de ácido.
– Eles eram meio rosados – disse O’Mara. – Então, eu peguei um e dobrei o resto e continuei caminhando.
Mas a noite de O’Mara estava a ponto de ficar estranha.
– Eu chego lá e todo o mundo está dizendo: “Cuidado com o ácido púrpura! Cuidado com o ácido púrpura!” – disse ele. – Eu digo: “Êi, aquele material era meio púrpura. Ummm.”
O oficial de justiça da Cidade de Bethel, Stanley Liese, dirigia um calmo tribunal. Mas em agosto de 1969, Liese repentinamente recebeu o equivalente a 18 meses de trabalho: 177 casos. A acusação mais comum: posse de utensílios para administrar narcóticos. Se os casos não fossem simplesmente deixados de lado, a multa normal era de $25. Liese lembra-se de um garoto de 16 anos que foi acusado de vender maconha (29 gramas por $6) e possuir quase três quilos do material com intenção de vendê-lo. Clientes encolerizados seguiram a polícia montada até a casa de Liese, quando eles trouxeram o negociante de maconha suspeito. Os clientes exigiam que o juiz o sentenciasse, porque a erva era horrível. Liese prendeu-o na cadeia do Condado de Sullivan e enviou uma amostra da erva ao laboratório policial de Albany para análise. A Cozinha Grátis foi criada para alimentar as centenas das pessoas que estariam fora do concerto, apenas vendo as coisas. Os organizadores se sentiam responsáveis pelas pessoas despreparadas, então eles planejaram alimentá-los. Mas na tarde de sábado, a Cozinha Grátis da Hog Farm estava cozinhando para milhares, depois da Comida por Amor se transformar em caos.
– Eu comprei caminhões de grãos, barris de molho de soja – disse Goldstein. – Eu comprei muitos legumes de toda parte.
Mas depois que as estradas se fecharam, o problema de Goldstein passou a ser como levar a comida até as pessoas. Os helicópteros não podiam achar um lugar para aterrissar.
– Os sanduíches estavam chegando em um helicóptero da Guarda Nacional ao complexo da Hog Farm – disse Goldstein. – Nós conseguimos 200 pessoas para unirem as mãos, formando um círculo para o helicóptero.

 

Uma viagem de ácido em Woodstock nem sempre era voluntária.
– Eles diziam: “Não tomem o ácido marrom.” Eles o colocavam na melancia. Bem, quando os garotos tomam um tablete de ácido, eles sabem no que eles estão se metendo. Quando você bebe algo gelado porque está com sede, isso é diferente. Muitos dos garotos passando mal com o ácido estavam apenas sedentos. Eles não tiveram nenhuma escolha.
Mas enquanto os garotos estavam bebendo e tomando tudo o que havia ao redor, Lang estava sendo cuidadoso. De dentro do trailer que servia de quartel-general nos bastidores do palco, Lang não podia se permitir alucinar. Ele diz que nem mesmo fumou maconha naquele fim de semana.
– Eu não bebi nada que vinha de uma garrafa que eu mesmo não tinha lavado ou aberto – disse ele.
Até então, tudo bem para Leo O’Mara. O ácido tinha descido direto, o sol estava brilhando, e ele ainda não tinha sentido nenhum sintoma de que ia ficar como um zumbi. Mas ele estava com sede, sim, muita sede. Quatro latas de cerveja gelada estavam suando, próximo ao toco no qual ele estava sentado. De acordo com o código da contracultura, O’Mara não tocou nelas por uma hora, pelas suas contas. Ele até mesmo marcou em seu relógio. Pela hora em que ele disse que finalmente puxou o lacre, o sol já teria assado aquelas cervejas, mas O’Mara jurou que elas ainda estavam geladérrimas. Os fatos da física são claros. O’Mara estava alucinando quanto ao tempo ou quanto à temperatura.
– Eu não podia acreditar naquilo – maravilhou-se ele. – Eu falo sério, cara. Verdade.

 

Na noitinha de sábado, as orelhas de Lou Newman se “ergueram” quando ele ouviu o murmúrio na calçada, do lado de fora da sua loja de presentes em Liberty.
– Os garotos faziam um “Walla-walla-walla”. Eu realmente não pude ouvir o que eles estavam dizendo – disse Newman. – Então, eu descobri o porquê. Um sujeito entra e diz: “Nós estamos com o Jefferson Airplane, e esta é Grace Slick.” Eu não sabia de nada sobre um Jefferson Airplane.
Marty Balin, Jorma Kaukonen e Slick estavam no Holiday Inn, mais abaixo na estrada. Todos os três assinaram o livro de convidados de Newman.
O espetáculo não estava indo em frente. Janis Joplin, The Who e Grateful Dead recusaram-se a tocar no sábado à noite. Seus produtores queriam dinheiro vivo com antecedência. A Woodstock Ventures temia que os fãs se revoltassem se o palco ficasse vazio. Os promotores pediram a Charlie Prince, o gerente da filial de White Lake do Banco Nacional do Condado de Sullivan para arranjar o dinheiro. Prince sabia que John Roberts, Presidente da Ventures, tinha um fundo de confiança de mais de $1 milhão.
Tarde da noite, no sábado, Prince conseguiu passar pelas ruas lotadas de Liberty até White Lake, onde ele abriu o banco. Ele descobriu que a entrada de depósitos noturnos estava transbordando com bolsas de dinheiro vivo. Prince chamou Joe Fersch, o presidente do banco, que lhe disse que decidisse por si mesmo. Depois que Roberts deu a Prince um cheque pessoal naquela noite, de “50 ou 100 mil dólares”, Prince preencheu os cheques do caixa. Os artistas foram pagos. O espetáculo foi em frente.
– Eu sentia que, se eu não lhes desse o dinheiro para o espetáculo ir em frente, bem, o que fariam meio milhão de garotos? – disse Prince.

 

Um espectador, que pediu para ser identificado apenas como Andrew, tinha decidido que Janis Joplin estava apaixonada por ele. Andrew sabia que ele tinha uma chance naquele romance de palco.
– Eu sabia que se pudesse simplesmente fazer amor apaixonadamente com ela, tudo estaria bem e ela se apaixonaria por mim para sempre – recordou Andrew. – Eu entrei um metro no palco, e uns 40 policiais discordaram de mim. Eles me arrastaram para fora. Eu não era o único. Isso aconteceu o tempo todo.

 

O amigo de Phil Ciganer era o guru do violão Jerry Garcia, do Grateful Dead, que costumava aparecer na boutique hippie de Ciganer no Brooklyn. Mas, amizade à parte, Ciganer tinha de ser honesto quanto à performance do Grateful Dead em Woodstock. Os membros da banda estavam pisando na água, suas guitarras dando choque em seus dedos.
– Foi o pior espetáculo deles que eu já vi. – disse ele.
O The Who tinha lançado sua primeira ópera rock, Tommy, em junho. Agora, logo após a meia-noite, os hard-rockers ingleses estavam executando a música-tema do conjunto de três discos, See Me, Feel Me. “Escutando você, eu recebo a música”, cantava Roger Daltrey, de camisa franjada. “Contemplando você, eu recebo o calor” O chefe Yippie Abbie Hoffman sentava-se no palco com Lang durante o show do The Who. Hoffman tinha estado trabalhando na barraca médica desde o show de abertura do festival, engolindo tabletes de ácido para ficar acordado.
Lang e Hoffman tinham estado procurando um sujeito imaginário com uma faca debaixo do palco. Lang decidiu que já era tempo de acalmar Hoffman. Ele tinha se tornado cada vez mais obsecado com a idéia de dar publicidade ao caso de John Sinclair, um adolescente de Michigan, preso pelo porte de dois cigarros de maconha.
Então ele saltou para cima do palco e agarrou o microfone, cuspindo algumas palavras sobre Sinclair, que tinha pego uma sentença de 10 anos de prisão. A guitarra base do The Who, Pete Townsend, não reconheceu Hoffman, e calculou que ele era só outro cara drogado da audiência invadindo o palco. Townsend acertou Hoffman na cabeça com sua guitarra.
– Abbie estava sendo Abbie – disse Kornfeld. – Ele estava muito sem cabeça em Woodstock. Ele não tinha contato com a realidade.

 

Woodstock – Domingo

Ao nascer do sol, no domingo, a voz de Grace Slick flutuava no ar, por toda a fazenda de Max: “Uma pílula o faz maior, e uma pílula o faz pequeno…”
– Alguns caras estavam lá fora fazendo ovos em uma fogueira de acampamento, dizendo: “Ei, cara, é o Airplane! Ei, cara, é o Airplane!” – recordou Jerome O’Connell, o hippie de Rome, N.Y.
O Juiz Liese ouviu uma comoção lá fora, no gramado. Hippies estavam acampados por toda parte do conjunto de bangalôs do Hotel Waldheim em Smallwood, o qual pertencia ao juiz. Mas Liese não podia explicar as batidas. Às 5:30 da manhã, o juiz se levantou para investigar.
– Eu vi um homem de cabelo comprido vagando ao redor dos bangalôs e tentando abrir as portas – disse ele. – Eu perguntei ao homem o que ele estava procurando. Ele disse: “um médico”. Eu lhe disse que o Dr. Dombeck morava a um quilômetro de distância, mas seria impossível chegar lá por causa das estradas. Ele continuava elevando sua voz mais e mais alto. Eu lhe disse finalmente que partisse. Mas eu acho que cometi um erro, ficando muito perto, por trás dele. A próxima coisa que eu percebi foi que acordei. Ele tinha me dado um soco na boca e tinha me nocauteado. Eu fiquei desmaiado por talvez 20 ou 30 minutos.
O soco também arrancou a maioria dos dentes de Liese.
– A manchete de jornal dizia: “Hippie bate em juiz” – disse Liese.
Abe Wagner não gostava de monstruosidades. Anos após, ele recordava os garotos famintos, os garotos perdidos, os garotos sem nenhum lugar para dormir, nenhuma parte para se aliviar. Os garotos usando e vendendo drogas. Havia “os agitadores de massas”, como Wagner os chamava, mas ele enfatizou que eles eram uma minoria pequena.

 

– Eu sentia pena dos garotos deitados pela margem da estrada – disse Wagner. – Famintos. Sujos. Eu me lembro de um casal belga; ela estava chorando. Eles tinham perdido seus filhos. O que eu poderia fazer? – Wagner disse que ele e seus vizinhos os alimentaram. – A maioria de nós aqui tinha duas ou três semanas de comida disponível. Nós pusemos uma tábua na nossa calçada e pusemos a comida nela e alimentamos os garotos. E nós levamos latas de sopa e montamos uma cozinha de sopa para os garotos em um edifício velho na Estrada Lake Shore.
Mas também havia um punhado de gente desagradável entre os vizinhos de Wagner. Wagner se lembrava de um residente de Bethel que cobrou $10 para rebocar um carro para fora de um fosso barrento até a estrada. Quando um garoto não tinha o dinheiro, o vizinho rebocava o carro direto de volta à lama.

 

Wavy Gravy chamou isto de “Café da Manhã na Cama para 400.000”. A receita: aveia ou trigo (freqüentemente ambos). Cozinhe até virar mingau. Adicione amendoim para dar gosto. Cozinhe até ganhar textura. Para um prato adicional, frite, mexendo sempre, quaisquer legumes que possam ser preparados juntos. Ponha as misturas em pratos de papel.
– Esta gente estava alimentando centenas de milhares das pessoas literalmente com nada – disse Krewson. – Eles estavam pegando o que conseguiam e alimentando as pessoas com aquilo.
Gravy disse à audiência que aquilo não era nenhum milagre.
– Nós estamos alimentando uns aos outros, homem – disse ele.
A Hog Farm tinha se tornado a Hog Farm Maior. Gravy estava liderando milhares de voluntários agora, mais ou menos. Muitos fazendeiros recém recrutados da Hog Farm tinham tiras de poliéster vermelho, cada uma marcada com um porco alado, amarrada ao redor de seus braços.
– Ficou difícil diferenciar as pessoas realmente responsáveis da Hog Farm das pessoas que entraram para ela mais tarde – disse Goldstein. – De repente, a única credencial era a Hog Farm. Havia tantas pessoas fazendo tantas coisas, que o brasão da Hog Farm (faixa de braço) tornou-se um passe para todas as áreas. Um trabalhador do campo queria participar e, três horas depois, ele estava dirigindo uma turma. A idéia de Gravy era simplesmente de que, eventualmente, todo mundo na multidão inteira teria um brasão.

 

Por volta do meio-dia, o sol estava batendo sobre Bethel. A insolação tornou-se a preocupação maior, embora alguns fãs estivessem mostrando sinais de pneumonia por ficarem encharcados durante dois dias. Os promotores pensaram em usar as mangueiras de incêndio para refrescar a multidão, mas não o fizeram. Começou a chover novamente pela tarde.
O grupo do domingo estava novamente repleto de roqueiros: The Band, Joe Cocker, Crosby, Stills & Nash, Ten Years After, Johnny Winter e Jimi Hendrix. Ainda havia o Iron Butterfly, que foi uma pioneira do heavy metal, e também estava programada para tocar. Essa banda chegou a Nova York de uma excursão de âmbito nacional de sete semanas, e pediu um helicóptero para levá-los ao festival. Mas Lang e os outros organizadores se preocuparam com o fato de que a música hippie/heavy-metal da Iron Butterfly poderia ser perigosa, naquelas circunstâncias.
O mestre de cerimônias John Morris despachou um telegrama bem mau educado para o grupo no aeroporto. Esse telegrama tinha sido projetado para provocar os membros da banda e fazê-los decidir não tocar. Mas Lee Dorman, o baixista da Iron Butterfly, se lembra dessa história de forma diferente. Os organizadores de Woodstock, disse ele, deveriam ter enviado um helicóptero e simplesmente não o fizeram.
– Duas ou três vezes, nós deixamos o nosso hotel e fomos para o heliporto, na Rua 33 – disse Dorman. – O helicóptero nunca veio. Eu acho que ele tinha coisas mais importantes para fazer, como alimentar pessoas.

 

A banda foi para casa, na Califórnia e, a princípio, os membros não se importaram em perder o festival.
– Quando nós ouvimos como o festival era grande, pensamos: “Maldição, nós o perdemos”. – disse Dorman. – Teria sido o máximo tocar “In-A-Gadda-Da-Vida” ou até mesmo só dizer “Oi”.

 

Ben Leon dirigia o negócio de aluguel de barcos na Lagoa de Filippini, popularmente conhecida como o “Lago de Leon”. O senhor de 90 anos vigiava os barcos da varanda de uma choupana que ficava num morro, logo acima do maior local de pesca de Woodstock . No fim de semana de Woodstock, Leon não estava alugando barcos, mas ele ainda estava vigiando.
– Ele se sentou na varanda, o velho bobo, e podíamos ouví-lo a quinze metros de distância: “Heee-heee-heee. Haw-haww-haww” – disse Feldman. – Ele tinha um par gigantesco de binóculos. Deviam ser localizadores de submarinos da Marinha ou algo parecido. O engraçado foi que, 10 dias depois do festival, ele caiu morto. Eu falei com o agente funerário, e ele disse que não conseguiu tirar o sorriso da face do sujeito. Isso é que é jeito de ir, eu imagino.

 

Meu pai vai me matar…
Ele tinha 17. Ela tinha 15. Em algum momento durante o fim de semana, eles vieram ao banqueiro Charlie Prince com um problema. Seus pais não sabiam onde eles estavam. Eles tinham outro problema. O menino tinha tirado o Oldsmobile 1969, de apenas uma semana, que pertencia ao seu pai, para um passeio. De alguma maneira, eles tinham terminado em Woodstock. Eles tinham mais um problema. Eles não conseguiam achar o carro.

 

As estimativas de freqüência continuavam subindo. Por volta do domingo, os cálculos da polícia do estado eram de 450.000, e outros arredondaram esse número até mesmo para meio-milhão. Mas o editor de Recordes Al Romm, que coordenava a cobertura do show de um trailer atrás do palco, acreditava que as estimativas estavam todas erradas. Usando fotografias aéreas como fonte, Romm jurou que Woodstock atraiu 150.000 pessoas, talvez.
– Havia 100.000, 150.000 por lá – disse Romm. – Era vantagem para todo o mundo, a polícia, os promotores e os repórteres dizer que havia mais. Não era vantagem para ninguém dizer que havia menos. O maior concerto antes desse teve 20.000 pessoas. Woodstock ainda era um grande negócio; apenas não havia tantas pessoas.
Bert Feldman, o historiador de Bethel, também sustentou a idéia de que as estimativas de freqüência estavam erradas. Mas ele achou que os números estavam baixos
– Havia 700.000 pessoas lá – disse ele. – A estimativa de freqüência está baseada em fotografias aéreas, e havia milhares das pessoas debaixo de árvores.

 

Ralph Corwin pegou um maço de cigarros, acendeu um e começou a descer a Hurd Road. O ciclista de 26 anos, se encontrou na tarde de domingo com um casal jovem. A garota usava uma camisa do exército e uma calça jeans preta. O sujeito mendigou um cigarro; Corwin lhe deu três ou quatro. O casal foi caminhando. Corwin olhou por cima de seu ombro. Uma parte de trás da calça jeans preta da garota estava faltando.
– Só tinha a tira no centro – Corwin disse. – Nenhuma calcinha, e os dois lados da bunda estavam de fora.
Um temporal pequeno e violento caiu por volta das 17:00, provocando um êxodo das terras baixas para as altas. Leo O’Mara notou um sujeito com uma barba vermelha e um sorriso enorme, usando uma capa de chuva. O’Mara se sentou na lama e se perguntou por que esse sujeito estava tão feliz num tempo tão miserável.
– Então eu notei que havia três outros pares de pernas debaixo daquela capa – disse O’Mara.
Jerome O’Connel começou a caminhar de volta ao carro ao pôr-do-sol. As chuvas tinham continuado ao longo da maior parte do dia, e O’Connel sentia-se abatido pelo tempo. Ele não era o único que realmente queria partir.
– Eu me lembro de que havia uma fila inteira de carros em ambos os lados da estrada – disse O’Connell. – Não havia bastante espaço no meio para um carro. Mas alguém tinha dirigido por aquele meio de qualquer forma. Havia uma raspagem de 9 centímetros nos carros em ambos os lados do caminho. Devia ter 50 carros arranhados.
Todo o fim de semana, hippies tinham acampado na fazenda Heller, à altura da interseção da Rota 17B com a Happy Avenue. Os jovens não pediram permissão antes de montar acampamento. E eles deixaram garrafas quebradas e latas amassadas para trás. Mas a última gota foi no domingo à noite.
– No último dia, nós tínhamos um carro do lado de fora, com uma mangueira perto dele, que usávamos para lavar o carro – disse Blanche Heller. – Nós acordamos e descobrimos que eles tinham cortado a mangueira e tinham tirado toda a gasolina do tanque do carro. Agora, se eles pelo menos tivessem pedido…
Em Jeffersonville, a congregação local estava aborrecida com um garoto que tinha entrado no porão da igreja. Ele não tinha causado nenhum dano, não tinha deixado nenhuma bagunça, mas os locais ainda estavam aborrecidos pela intrusão.
– Eles acharam aquele jovem lá dentro, que tinha aquecido uma lata de feijões, comido eles, e deixado dinheiro na mesa pelo gás que ele tinha usado. – disse Adelaide Schadt, esposa do advogado da cidade de Bethel.

 

EI…
Enquanto outros astros entravam e saíam do espetáculo a bordo de helicópteros, a principal atração, Hendrix, estava vagando pela multidão a pé. O’Mara se lembrava de Hendrix parando para falar com muitas das garotas. Outros se lembram da visita do astro à Barraca de Horrores naquele dia.
– Nós não sabíamos que era ele – disse a Enfermeira Sanderson. – Apenas um homem negro deitado na maca. Então, todo o mundo começou a dizer: “Ei, aquele não é o Jimi Hendrix ?” – Hendrix ficou deitado na maca por aproximadamente 30 minutos antes dos roadies o carregarem.

 

O Investigador Cannock encontrou o pai de Raymond Mizak no domingo à noite numa casa funerária em East Broadway em Monticello. O senhor Mizak estava acompanhado pelo tio do jovem, um tenente da Polícia do Estado de Nova Jersey.
– O trator passou por cima do seu tórax – disse Cannock. – A cabeça dele estava duas vezes o tamanho normal. Realmente grotesco.
O pai contou a Cannock que tinha se recusado a dar permissão ao menino para ir ao concerto. Cannock disse que o pai se culpava, dizia que deveria ter trancado seu filho em casa.
Dois dos mais veementes oponentes do festival apareceram no local, independentemente, em algum momento do sábado ou do domingo. O Supervisor de Wallkill Jack Schlosser e o ex- Supervisor de Bethel George Neuhaus visitaram o local e chegaram a conclusões idênticas.
– Ficou óbvio para mim que ninguém sabia o que estava fazendo. Ninguém. – disse Schlosser.
Cannock chegou ao necrotério do Horton Memorial Hospital, em Middletown, mais tarde na noite de domingo. Um homem nos seus 20 anos, que tinha estado no festival, tinha morrido de uma overdose de heroína. Cannock não pôde se lembrar do nome do homem, e nunca o identificaram. Mas pela segunda vez naquele dia, Cannock foi chamado para identificar um corpo. Cannock localizou um conhecido do homem morto e o encontrou no necrotério. O rapaz já tinha passado pela autópsia – disse Cannock.
Inexplicavelmente, o corpo não foi costurado depois do tórax ter sido aberto para a autópsia, de acordo com o que disse Cannock.
– O amigo puxou o lençol demais e viu tudo – disse ele. – O garoto desmaiou na hora.

 

Do lado de fora da fazenda de Yasgur, médicos e enfermairos do Monticello Hospital tinham montado uma clínica em uma escola que estava fechada para o verão. A chefe de enfermagem do Monticello Hospital, Gladys Berens, ajudou no parto de três bebês, a quilômetros apenas do local do festival. Ela estava lá quando um marinheiro de licença foi trazido em algum momento do domingo, inconsciente com uma overdose. O marinheiro de Long Island, de 18 anos, morreu no hospital, uma das três fatalidades do concerto.
– Esse jovem marinheiro tinha saído da guerra sem um arranhão, e ele acaba morrendo no Horton Memorial Hospital em Middletown, N.Y. Que triste… – recordou-se Berens.

 

Lucy in the Sky with Diamonds
Artie Kornfeld calculou que a cápsula que ele estava tomando era estimulante, Dexedrine, algo para o manter alerta pelo resto do festival. Sua esposa, Linda, tomou uma também. Então ele começou a alucinar que a Guarda Nacional (que não estava lá) estava atirando na multidão. As cores estavam todas derretendo, misturadas.
– Eu estava “dosado”. Foi meu primeiro psicodelismo, e aconteceu em Woodstock – disse Kornfeld. – Eu nunca teria escolhido deliberadamente aquele lugar, nem fazer isso em Woodstock.
Kornfeld soube depois que a cápsula era cogumelo psilocybin em pó, um alucinógeno poderoso.
– Eu decidi que nós precisávamos de ajuda. Faltavam 12 horas para o Hendrix – disse Kornfeld. – Eu fui “Thorazinado” para fora daquilo. É por isso que eu perdi o Hendrix.

 

O Holiday Inn em Monticello era um dos quartéis generais para os artistas de Woodstock. Também era o quartel para a polícia do estado. Cannock não ficou impressionado por estar na companhia dos ricos e famosos. Ele nem mesmo se lembra dos seus nomes.
– Nós estávamos apertados no mesmo lugar. Eu não fiquei emocionado em tê-los lá – disse o investigador. – Os dois corpos mortos ficaram fixados no meu cérebro.

 

John Pinnacaia nem mesmo sentiu nada no princípio, só uma pontada de dor na sola do seu pé, tarde da noite de domingo. Então uma menina começou a gritar, e havia todo aquele sangue.
– Deve ter sido algum tipo de garrafa – disse ele. – Eu nem mesmo podia ver. Meu pé estava na lama.
Pinnacaia tinha estado escutando o guitarrista Johnny Winter enquanto buscava sanduíches de pasta de amendoim para ele, sua namorada e sua irmã. Mas o rapaz de 18 anos, do Brooklyn, deu um passo e se tornou uma vítima de Woodstock.
– Aqule sujeito me pegou, me jogou por cima do seu ombro e correu comigo para o hospital (a tenda). Deve ter salvo a minha vida – disse ele.
Um helicóptero o levou para o Hospital de Monticello.
– Eles tinham me dado uma injeção de anestésico, mas ele não tinha começado a fazer efeito – disse Pinnacaia. – Eles tiveram que começar a dar os pontos. Então uma enfermeira grande e gorda sentou-se em mim para que eu não pudesse me mover, e eles começaram a costurar. Isso é tudo que me lembro daquilo. Uma outra coisa: eles ligaram para a minha casa pedindo permissão para operar. Minha mãe se apavorou.

 

Woodstock – Segunda-feira

Eram aproximadamente 9:00, hora do Hendrix, a principal atração. Ele tinha se lançado no hino nacional, um momento que entraria nos anais do rock’n’roll.
– Eu me lembro de tentar dormir durante o “Star-Spangled Banner” (o hino americano) – disse Ciganer, o amigo de Jerry Garcia. – Eu só desejava que ele parasse.

 

A festa estava terminada.

 

Os sócios tiveram que enfrentar um tipo diferente de música. A Woodstock Ventures tinha conseguido cartas de crédito, apoiadas no fundo de confiança de Robert, de um banco em Wall Street. Agora, a Ventures estava com um débito de pelo menos $1.3 milhões. Kornfeld ainda estava cheio de lama, quando entrou no escritório do banqueiro.
– Ele tinha um tanque com uma piranha dentro, e estava dando carne a ela – recordou Kornfeld. – Sua atitude já era um campo de batalha.
A Ventures estava em dificuldades, porque Woodstock tinha sido um buraco sem fundo, engolindo dinheiro durante seis semanas. As despesas da promoção de Kornfeld eram de mais de $150.000, setenta por cento acima do orçamento. As despesas da produção de Lang tinham ido a $2 milhões, trezentos por cento acima do orçamento.
A Ventures tinha pago turnos dobrados, para fazer seis meses de trabalho em seis semanas. Três dias de funcionamento de uma frota particular de helicópteros também tinham ajudado a estourar o orçamento.
– Era como viver um sonho – recordou Lang. – Minha idéia era somente conseguir ver aquilo feito, não importando o que custasse. Nós tínhamos uma visão, e tudo se tornou realidade.
Quando tudo acabou, os banqueiros de Wall Street exigiram uma contabilidade. Os promotores tinham vendido aproximadamente $1.1 milhão em ingressos, mas a Ventures tinha anotado talvez $600.000 em cheques sem fundo, e tinha outras dívidas. A partir de 19 de agosto de 1969, o maior marco da contracultura tinha custado, no mínimo, 2.4 milhões de dólares duros e capitalistas. Milhares de dólares mais em multas, taxas, reivindicações e processos nem tinham chegado ainda. Para completar tudo, havia uma investigação criminal. O escritório geral dos advogados e o procurador distrital do Condado de Sullivan estavam começando a investigar.

 

Quanto àqueles dois garotos que trouxeram suas aflições a Charlie Prince: o banqueiro os ajudou a resolver o problema. Eles encontraram o Olds 69 de uma semana. Estava estacionado a treze quilômetros de distância. Na frente da casa de Neuhaus. Dois policiais do estado estavam sentados nele.
Leo O’Mara caminhou os 32 quilômetros de volta ao seu carro. Andrew nunca achou os amigos que o trouxeram, mas fez alguns novos e voltou para casa com eles. Gary Krewson tinha ido embora na tarde de Domingo, no ônibus da Volkswagen em que ele tinha vindo.
O pequeno Michael Kennedy, de Smallwood, tinha três anos. Na terça-feira, seu papai o levou até a fazenda de Yasgur.
– Tudo de que eu posso me lembrar é de todo aquele lixo – disse Kennedy. – Foi a primeira vez em que eu vi um cabeludo. Eu perguntei ao meu pai: “o que são eles?”. Ele disse: “Este é alguém que não corta o cabelo e cata lixo.”
A Ventures gastou $100.000 para limpar o local destroçado do festival. Goldstein cavou um buraco enorme e jogou para dentro, com a ajuda de um trator, toneladas de sapatos, garrafas, documentos, roupas, barracas e sacos plásticos. Ele botou fogo na pilha. A imensa fogueira fumacenta rendeu à Ventures um processo por queimada ilegal, da parte dos oficiais de Bethel.

 

Na terça-feira, o telefone de Prince soou no banco nacional do Condado de Sullivan. Era o presidente do banco, José Fersh, que disse a Prince que a conta da Woodstock Ventures estava $250.000 no vermelho. O cheque de Robert estava sem fundos, e os cheques que Prince tinha preenchido no sábado à noite para os artistas não tinha sido coberto. Fersch queria saber: “O que você vai fazer quanto a isso?” Então Prince ligou para Roberts.
– Roberts disse: “Eu sei a fria em que você está, Charlie. Eu estarei aí na quinta-feira pela manhã” – recordou Prince.

 

Pela quarta-feira, o laboratório tinha analisado a substância verde, parecida com folha, mantida como evidência pelo tribunal do Juiz Liese. Os fumantes encolerizados tinham razão. Eles compraram erva falsa.
– Provou-se que aquilo era uma mistura de grama e comida de pássaros – disse o juiz. – Ele deve ter pago $6 pelos dois quilos daquilo.
Liese ordenou que o vendedor de maconha de meia-tijela fosse solto.
– Um sujeito que vende comida de pássaros a $6 por 28 gramas. O que é que se vai fazer? – disse Liese com uma risada.
Na quinta-feira pela manhã, Roberts chegou sozinho à filial de White Lake do Banco Nacional do Condado de Sullivan. Ele empenhou $1 milhão em ações com o banco para cobrir os $250.000 da dívida.
– Eu fui salvo da forca – disse Prince.
Roberts, Lang, Kornfeld e Rosenman tinham feito garantias pessoais para pagar as contas. Mas só a família de Roberts – e seu próprio fundo de capital – tinham recursos suficientes para pagar integralmente a dívida de Woodstock. Enquanto Lang estava com a turma da limpeza, os outros três sócios se contorciam sob os olhares dos fiscais. O pai e o irmão de Roberts disseram aos banqueiros de Wall Street que eles nunca tinham fugido de dívidas e não iam começar agora. A família Roberts pagou a dívida integralmente.

 

Krewson estava sentado nos degraus do único hotel da cidade, quando viu três ônibus escolares psicodélicos passando casualmente acima, numa ladeira, e parando no único sinal de trânsito da cidade. O ônibus líder, dirigido por Wavy Gravy, fundiu o motor. Krewson foi buscar o único mecânico da cidade, que deixou os Pranksters e os fazendeiros da Hog Farm usarem sua garagem. A tripulação do ônibus tirou o motor fundido e colocou um de reserva em 45 minutos. Gravy e companhia estavam a caminho de outro festival no Texas.
O Times Herald-Record colocou suas histórias na competição do Prêmio Pulitzer de 1969. O editor Al Romm relembra:
– Um amigo, anos depois, que estava no júri, disse: “Você nunca vai saber como chegou perto de ganhar.” Nossa cobertura levou um tom diferente da maioria das publicações. Ninguém teve tantas pessoas em cena como nós tivemos, mais ou menos seis. Nós tivemos cobertura passageira da música. Realmente podíamos ter feito melhor que isso. Nós apenas ficamos envolvidos com as indignidades humanas. A doença. As falhas.

 

Seis semanas depois do festival, Rosenman e Roberts compraram a parte de Lang e Kornfeld por $31.240 cada. Lang, Kornfeld, Rosenman e Roberts – os quatro jovens que tinham produzido e promovido Woodstock – ficaram separados por mais de 20 anos pela desavença de Woodstock. Rosenman e Roberts permanaceram melhores amigos. Mas eles acusaram por anos Lang e Kornfeld, mas especialmente Lang por ter agarrado toda a atenção imediatamente após o evento. Por exemplo, Rosenman e Roberts não estavam no filme em momento algum. Kornfeld foi visto umas duas vezes, mas Lang recebeu bastante destaque, passando com sua moto e sendo entrevistado.
– Nós estávamos tão ocupados, que eu acho que o crédito foi todo dirigido ao Lang – disse Rosenman em 1989. – Anos depois, as pessoas perguntavam: “Você estava envolvido naquela coisa que o Lang fez?” Você tem que estar há muito tempo nesse negócio para saber como tem valor ser famoso. Eu acho que Michael e Artie sabiam disso. Nós não tínhamos idéia alguma.
Lang disse em 1989 que ele, mais que qualquer um, é provavelmente o responsável pelo desentendimento.
– John e Joel eram de um mundo diferente. Eles estavam do lado de fora, e não entenderam – disse Lang. – Eu não tive tempo para aclimatar os dois. Eu não sou a pessoa mais comunicativa do mundo. Eu era um tipo de sabichão.
Kornfeld, refletindo sobre o assunto, calcula que não é realmente importante quem fez o quê.
– Com toda a procura por atenção que tem rolado ao longo dos anos, na minha realidade há muitas coisas mais importantes – Kornfeld disse. – Olha, nenhuma pessoa produziu Woodstock; a geração produziu Woodstock. E veja isso emanando agora.

 

Woodstock teve 5.162 casos médicos, de acordo com um relatório do Departamento de Saúde do estado que foi lançado em 4 de outubro de 1969. O relatório listou 797 casos documentados de abuso de drogas. Nenhum nascimento foi registrado na barraca médica do festival, mas o Dr. Abruzzi disse ao Departamento de Saúde que houve oito abortos. O relatório lista duas mortes por overdose de drogas e a morte de Raymond Mizak no acidente do trator. No final do outono de 69, um grande júri do Condado de Sullivan declarou que não havia evidências suficientes para acusar qualquer um de qualquer coisa. O motorista do trator nunca foi identificado e não foi acusado. Outra investigação do escritório geral de advogados do estado terminou no início de 1970 com a Woodstock Ventures tendo de fazer reembolsos no valor de 12.000 a 18.000, por ingressos. Esses ingressos foram vendidos a pessoas que não puderam assistir ao festival porque as estradas estavam fechadas.
John Pinnacaia era considerado 1-A (apto a ir para a guerra do Vietnam) pelo conselho de alistamento, quando ele entrou na fazenda de Yasgur. Depois que ele pisou na garrafa e teve o tendão do pé direito cortado, ele foi classificado 1-Y (ficaria na lista de espera), por uma inaptidão temporária. Depois de quatro meses usando muletas, Pinnacaia casou-se, o que o pôs ainda mais baixo na lista de alistamento. Pinnacaia ficou fora do Exército, mas ainda carrega um “mapa de estrada” de cicatrizes em seu pé. Ele chama aquilo de “o ferimento de Woodstock”.
– Eu não posso caminhar nem sequer com sapatos em cima de vidro quebrado. Eu me encolho com o barulho – diz Pinnavaia.

 

O dono da única loja de estéreos em Middletown tornou-se um tipo de hippie.
– Eu deixei de ser “um de mim” e tornei-me “um deles” – disse Allan Markoff.
Markoff sempre lamentou não ter ficado em Woodstock, mas ele explica isto desse modo:
– Não havia nenhum lugar para ficar. Eu não sou um indivíduo próximo da terra. Eu sou um indivíduo do tipo Ritz Carlton, e não havia nenhum lugar luxuoso para ficar. Eu não posso viver na chuva e na lama.
Markoff, também entraria em cheio no negócio do rock’n’roll, fornecendo equipamento para uma excursão dos Rolling Stones no início dos anos setenta. Ele montou um sistema de som volumoso no quarto de hotel do ex-Beatle George Harrison, no Plaza da Cidade de Nova Iorque. Harrison foi desapropriado imediatamente do hotel.
Dois anos depois de Woodstock, o instalador de cercas Daniel Sanabria descobriu que era um tipo de estrela. Woodstock: O Filme, estava passando. Ele estava no filme.
– Sendo canastrões, nós saltávamos na frente da câmera em qualquer oportunidade – disse Sanabria. – Aquele foi o melhor momento das nossas vidas. Nós nos uníamos como crianças; nós nos uníamos como homens.

 

Woodstock – A palavra final

Depois de Woodstock, Wavy Gravy quis manter a energia fluindo. Ele retornou à comunidade da Hog Farm, onde ele descobriu que “todo hippie no mundo tinha se mudado para nossa casa”. Gravy conseguiu alguns milhares de dólares da Warner Brothers para financiar um filme que ele havia proposto: Medicine Ball Caravan. A idéia era reunir alguns Pranksters e fazendeiros da Hog Farm, viajar pelo país em um ônibus e filmar a viagem. O filme nunca foi lançado. De alguma maneira, o grupo terminou na Inglaterra. Ao longo do início e meio dos anos setenta, eles viajaram por 13 países, incluindo a Turquia, Índia e Nepal, distribuindo comida de graça e material médico pelo caminho.
Max Yasgur fez um tour por Israel, aproximadamente dois anos depois do concerto, e teve a oportunidade de conhecer o primeiro primeiro-ministro de Israel, David Ben-Gurion. Ben-Gurion passou pela fila de recepção, falando com todos os convidados.
– Max disse a Ben-Gurion: “Eu sou Max Yasgur, de Bethel” e Ben-Gurion aperta sua mão e diz: “Ah, sim, esse é o lugar onde aconteceu Woodstock, não foi?” – lembrou-se Lou Newman, um amigo de Yasgur até a morte do fazendeiro por um ataque do coração em 1973.
A fazenda de Yasgur foi subdividida e vendida por sua viúva, Miriam. A maior parte daquela terra ainda é pasto, forragem para o gado de Bud Russel, que possui a velha casa da fazenda de Yasgur.
Enquanto Woodstock começava a se esvanecer em lendas no início dos anos setenta, a Cidade de Wallkill foi considerada a cidade das hostilidades, para consternação do Supervisor de Wallkill, Schlosser. Wallkill só estava tentando se proteger de uma multidão com a qual não estava preparada para lidar, disse ele. Além disso, adicionou Schlosser, que se aposentou da política em 1984, os promotores mentiram para a cidade, e isso nunca é mencionado no folclore de Woodstock.
– Isso é o que me aborrece sobre essa coisa toda – disse Schlosser, em 1989. – Permitiu-se que eles perpetuassem esse mito por 20 anos.

 

O diretor médico de Woodstock, Dr. William “Rock Doc” Abruzzi, seguiu em frente, especializando-se na medicina de abuso de drogas. As drogas trouxeram reconhecimento a Abruzzi, mas elas também forneceram os meios para a sua queda. Ele foi acusado em 1974 de anestesiar mulheres, suas pacientes, e molestá-las enquanto estavam inconscientes. Dois anos mais tarde, minutos antes de ele ir a julgamento, ele admitiu a culpa por abuso sexual. A saga de Abruzzi não terminou por aí. A suprema corte do estado decidiu que um policial violou os direitos de Abruzzi, ao olhar o doutor abusando de suas pacientes por janela de sala de exame. Abruzzi nunca cumpriu sua sentença de prisão, mas perdeu sua licença para clinicar em Nova Iorque. Desde então, ele sumiu de vista e não pode ser localizado. Até hoje Abruzzi tem seus partidários, incluindo a Enfermeira Sanderson.
– Ele foi envolvido em falsas evidências – disse a enfermeira, que se aposentou em 1980 e deixou Middletown.
Durante a década seguinte, Woodstock tornou-se virtualmente uma referência para tudo de louco que houve nos anos sessenta. Por volta de 1980, o mundo havia seguido em frente. Rosenman e Roberts ainda estavam investindo em novos empreendimentos.
– As transações em que nós estávamos envolvidos teriam sido vetadas se eles soubessem de Woodstock – disse Rosenman. – Isso não era exatamente anunciado em nossos currículos.
Kornfeld foi quem pôde usar suas credenciais de Woodstock. Ele permaneceu no ramo da música, promovendo concertos de rock e álbuns. Ele trabalhou com Bruce Springsteen e Tracy Chapman. Lang também ficou na música. Seu título como produtor de Woodstock lhe deu um certo crédito com super-estrelas do ramo. Lang assinou com um cantor de Long Island chamado Billy Joel, o seu primeiro contrato de gravação. Ele era o produtor de Joe Cocker. Mas até mesmo Lang menosprezou Woodstock.
– Eu não falei sobre isso durante anos – disse ele.

 

Country Joe calcula que seu destino foi selado logo que ele gritou: “Me dê um F”.
– Depois do filme ser lançado, eu fiquei conhecido somente por isso – disse McDonald. – É bem difícil fazer algo maior que o “Fish Cheer”. Eu não sei se posso fazer isso.
O Fish Cheer foi a chamada-e-resposta improvisada de McDonald, que começou com “Me dê um F” e terminou “No que é que isso dá?” (a palavra era “fuck”). A carreira musical de McDonald, depois de Woodstock, foi ladeira abaixo. Por volta dos anos oitenta, Country Joe disse que estava cheio do show business.
– Eu não farei outro disco novamente, a menos que pareça comercialmente viável – disse ele em 1989. – Eu simplesmente não tenho o desejo ardente de fazer um disco que ninguém quer ouvir. Você leva um ano para fazê-lo, e ele não vende mais de 1.000 cópias. Isso não é rentável. Música é uma coisa que precisa ser ouvida.
McDonald disse que o problema era que ele ainda estava escrevendo música “sociopolítica e anti-guerra”.
– Hoje, política e guerra não dão boa bilheteria – adicionou ele.
Quando McDonald faz uma turnê, é para um punhado de fãs em clubes folk minúsculos. Ele pode até mesmo aparecer num ocasional show revival dos anos sessenta, mas só se o preço for interessante.
– Eu não gosto de fazer essas coisas de nostalgia – disse ele – mas quando as pessoas me oferecem a quantia certa de dinheiro, eu faço. Eu nem escreveria uma história sobre mim mesmo. Eu não desperdiçaria meu tempo.
Por volta de 1991, o ano em que ele gravou um álbum acústico, Superstitious Blues, Country Joe tinha mudado seu tom. Em 1994, ele apareceu em um comercial da Pepsi que mostrava uma reunião de Woodstock para mauricinhos.

 

Um cara chamado Louis Nicky, do Brooklyn, comprou aproximadamente 40 acres de terra da viúva Yasgur, na interseção da Hurd Road com a West Shore Drive, em Bethel. Umas duas toneladas de concreto – a fundação do palco principal de Woodstock – estavam largadas no mato, no canto ao nordeste. Nicky realmente não preocupou muito com o pedaço de história que tinha comprado. Ele apenas queria criar alguns cavalos, mas um problema com câncer fez com que ele abandonasse o plano. Duas vezes, a cidade pôs um cartaz que identifica a terra de Nicky como o local do concerto. Nas duas vezes, o cartaz foi roubado.
Durante anos, ninguém comemorou o aniversário de Woodstock, e agostos vieram e foram sem ser percebidos. Pessoas que queriam parar na fazenda de Yasgur e relembrar, nem sempre tinham certeza de estar no lugar certo. No final dos anos setenta, um grupo de aparência desordeira começou a celebrar todos os agostos com uma festa de três dias. Ao redor de 1978, um soldador chamado Wayne Saward foi para a festa.
– E era, tipo, super sossegado – recordou-se ele. Havia 30 pessoas lá, no máximo. E era o meio da noite.
Então em 1984, Saward começou, quase sozinho, a construir o único monumento ao evento no mundo. Ele é um marco de cinco toneladas e meia, feito de ferro fundido e concreto; o proprietário Louis Nicky pagou $650 pelo concreto e a fundição do ferro. Uma vez que o marco foi colocado lá, o local se tornou um tipo de santuário da contracultura. Visitantes começaram a aparecer ao acaso, ficando por alguns minutos, e então partindo. A magia que é Woodstock continua…

Sobre Josi Vice

Moro em Recife, Pernambuco, onde nasci a 11 de outubro de 1985. Sou latino americano pós- moderno, poeta, cínico, dark, emocional e cerebral, um caranguejo com cerébro pós- Chico, um Nietzscheano sem Nietzsche, com delírios de poeta intelectualóide. Escrevo poesia desde os 15 anos. Sou fissurado em Hentai, Slipknot e Rock´n´Roll e em Literatura, Pop ou qualquer música de boa qualidade. Também adoro navegar pela net e pesquisar na web. Amo ler revistas e artigos, principalmente se for de culura. Esse cara sou eu. Nome real: Josafá César da Silva, mas prefiro Josi Vice ou Joker Vice ou César Vice. Signo: Libra Bandas e cantores preferidos: Slipknot, Beatles, Sex Pistols, Marilyn Manson, Cazuza, Legião Urbna, Elvis Presley, Silver Chair, Echo & The Bunnymen, The Cult, Southern Death Cult, Depeche Mode Poetas Preferidos: Fernando Pessoa, Camões, Marcos Henrique, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos, Allen Ginsberg Escritores favoritos: Nietzche, Machado de Assis, Paulo Coelho, Clarah Averbuck, Franz Kafka, Clarice Lispector e John Fante
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14 respostas para Toda História de Woodstock 69…

  1. extravagante disse:

    eu acho que o woodstock 69 foi o fim do rock n’ roll, ou mesmo talvez antes quando o Hendrix queimou a guitarra em Monterey (aí pode não ter sido o fim, mas perdeu-se a inocência)

    • Wallace Santana disse:

      com sua extravagente insistência em se manifestar. tem gente que perfe excelentes oportunidades de ficar calado: “PRESTENÇÃO, SÔ” – ROCK’N’ROLL(esse dileto filho do Blues) WILL NEVER DIE!!!

  2. Joker Vice disse:

    pois eh
    axo q woodstock ainda tinha inoicencia
    hj em dia naum
    e foi mto foda ele keimar a guitarra
    o heroi ficou alem do ato
    alem da guitarra

  3. autos disse:

    Grand emplacement – le bon travail ! ! !

  4. foro disse:

    ein was fur netter Aufstellungsort. ich mag es yeah mich!

  5. desde disse:

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  10. plaza disse:

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  11. José Soares Filho disse:

    Â época, eu tinha 09 anos!!
    Mas como eu gostaria de ter estado lá…
    Mas tudo bem! Estive no Rock in Rio de ’85!
    Valeu!!!

  12. Pingback: WOODSTOCK 40 ANOS « MANIA DE HISTÓRIA – De dez/08 a junho/09: 78 mil acessos!

  13. looy disse:

    so queria mi droga nessa porra
    escutando nirvana

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