Cazuza, voz dos anos 80


cazuza

“O disco tem toda uma temática de vida, boêmia e fossa, que é uma ligação minha com o Nelson Gonçalves, Lupicínio Rodrigues e Ataulfo Alves. Um dia ainda chamo o Nelson Gonçalves para cantar uma música com o Barão. Se isso chocar algum roqueiro, é sinal que ele precisa se libertar desse trauma”.
Sobre o disco Maior Abandonado, Folha de São Paulo, Alfredo Ribeiro, 08/09/84

“A noite é uma opção de vida. Gosto de acordar tarde e dormir com o dia nascendo. Por isso, a música Pro dia nascer feliz é a história da minha vida”.
Outubro/84, republicado na revista Amiga jul/1990

“Antes de eu nascer, já era Cazuza. Minha mãe tinha vergonha de me chamar, tão pequeno, de Agenor, nome do meu avô. Na escola, eu nunca respondia a chamada. Não sabia que meu nome era Agenor”.

“Nós, do Barão, não seguimos tendências; não nos importamos muito com o que se toca lá fora. É algo proposital. O som termina sendo cru. Eu, por exemplo, não dobro voz nas gravações. Não usamos bateria eletrônica. E a base muitas vezes é feita como se estivéssemos diante do público…”.

“Tenho loucura por dor de corno.”

“Quando morei nos Estados Unidos, percebi que eles também gostavam dessa temática contra mão, que se expressa no blues. Quer dizer, sempre amavam a pessoa errada.”

“Eu não entendo de rock, mas como componho com quem faz rock, o resultado é esse estilo do Barão Vermelho”.
Folha de São Paulo, Matinas Suzuki Jr., 17/10/84

“Eu não saio do bar, tomo 8 vodcas, milhares de não sei o quê, vou para casa e escrevo o que eu vi. O Tom Jobim uma vez disse que quando a gente canta o quintal da gente está sendo internacional, porque aquele quintalzinho só a gente tem. E o Brasil inteiro adora bar, adora cachaça, o Brasil inteiro é traído ( conjugalmente)”.

“Não tem nenhum jovem fazendo música brasileira, todo mundo é roqueiro, não tem ninguém que faça samba-canção, precisamos redimir a música brasileira”.
Jornal do Brasil, 26/10/84

“Eu acredito no amor eterno. Ainda vou encontrar alguém para ficar para sempre. Enquanto isso não acontece, sou galinha mesmo. Um hora aqui, outra ali, no vaivém dos seus quadris, como digo na música. Mas quero até ter um filho. Já que sou pai dos filhos dos outros… Adoro crianças…”.

“Transo. Com homem, com mulher, não tem o menor problema. Namoro muito, sou ciumento, nesse ponto sou muito careta. Mas estou melhorando, porque a vida é um aprendizado. Ciúme pode ser até supercriativo, um ciume que dê mais tesão. Pôxa, você vai lá, não fica comigo, qual é? Transou com outro, sacana… Faz-se uma ceninha rápida e, depois vem um puta tesão pra curtir mais a garota”.

“Minha primeira vez foi lá pelos 15 anos, numa festa em casa de amigos, em Petrópolis. Na minha fase meio pirada. Eu estava alto, e a menina me pegou meio a força. Ela era sapatão… Fui currado (risos). Depois a gente se namorou, mas não era o que ela queria”.

“Eu acho ótimoser filho único, porque isso quer dizer apenas ‘amor de mais’. Eu acho bom. O que atrapalha é a falta de amor. Não vejo o lance da super proteção. Eu sempre fui muito bem comportado até a adolescência. Tipo, “o neto preferido da vovó”, sabe? Depois, pintou o lance da rebeldia, fui expulso do Colégio Santo Inácio, fui fazer zona na rua, transar drogas, fugir para Mauá. Rasgava roupa para andar rasgado. Minha mãe desesperada. Aí quando acabava o dinheiro, tava eu de volta. Mas eles, meu pai e minha mãe, sempre foram incríveis comigo. Meu pai deu sempre a maior força pras loucuras que eu quis fazer. Sempre esteve do meu lado. Dizia: você vai quebrar a cabeça, mas faz o que você quer…”

“Eu fiz vestibular para comunicação, porque meu pai tinha prometido um carro; sempre fui tarado por carro. Com 14 anos, pegava o do meu pai. Os gruardas pegavam, tinha que dar grana, já era freguês… Bom, então fiz o vestibular, passei e desisti lá pela terceira semana. Aí falei pro meu pai que não tava a fim de estudar e ele falou: “Então vem trabalhar comigo”. Fui pra Som Livre. Trabalhei dois anos lá. O Lulu Santos também estava lá, fazendo produção. Eu selecionava repertório. Mandavam milhares de fitas de gente nova e eu ouvia. De cem, tirava uma boa, que mandava para o Guto Graça Melo. Eu fazia também, comunicados internos, e textos de releases, do Jorge Ben, do Moraes Moreira. Uma vez teve o show de um conjunto, nem lembro qual, que eles puseram meu texto na porta do teatro. Fiquei encantado”.

“Com meu grupinho no Santo Inácio, nos considerávamos altamente intelectualizados. Éramos comunistas convictos, com 11, 12 anos (risos). Desde aqueles tempos, eu era ótimo em redação. Agora mesmo, tenho pronto um livro de poesias. Falta só o editor. Outro dia achei um texto meu, escrito aos 11 anos: uma redação engraçada, inocente, linda. Mas sempre fui péssimo em português. Tenho o dom de escrever, mas sou nulo em ortografia. Sou o Ibrahin Sued do rock. O meu copy é o Ezequiel Neves. Uma vez que quis rimar “não me importem que mil raios me partam” e o Zeca quase morreu quando ouviu a fita…”

“Desde pequeno fui tiete de todo o pessoal da MPB. Elis Regina sempre tava lá em casa. Eu acordava de noite para tomar água, e lá estavam na sala o Gil, Caetano, a Gal. A música popular inteira me pegando no colo. Os Novos Baianos acamparam lá em casa, dormiam, iam comer, porque na época eram fodidos, não tinham onde ficar, e meu pai estava produzindo o primeiro disco deles. Só fui curtir rock, Janis Joplin, meus ídolos dos Rolling Stones, lá pelos 14 anos, quando dei uma pirada. Mas antes, o máximo que curtia era coisas do tipo “Alone again naturally”, água com açucar. Nessa época aos 14 anos, passei umas férias em Londres com um primo mais ajuizado. E foi mais uma abertura. Então passei a ouvir Janes Joplin o dia inteiro. Quando comecei a compor, acabei misturando tudo isso. Do menino passarinho com vontade de voar (Luiz Vieira) a Janes Joplin. Mas com uma diferença. A dor de cotovelo da MPB, mas dando a volta por cima. “Ah, você não gosta de mim? Então, foda-se também, eu estou aqui e sou mais gostoso”. O rock da turma nova veio amenizar o lance down, meio negro, de Lupiscínio, do pessoal da antiga, que era a falta de esperança no amor. O importante não é cantar a perda, mas o amor. Afinal, como dizia Dalva de Oliveira, ‘o amor é o amor’ “.

“Quando saí da Som Livre, passei uma temporada em São Francisco. Estava com 20 anos. Fiquei lá sete meses, dividia uma quitinete com um chinês. Descobri o blues de Janes Joplin, fiz cursos de fotografia, dança, essas coisas. Quando voltei, fui ser ator com o Perfeito Fortuna, do Asdrúbal; foi na época que a gente armou o Circo Voador, no Arpoador, para fazer a peça ‘Pára-quedas do coração’. Eu não dizia uma palavra em cena, só cantava o tempo todo. A primeira coisa que eu cantei foi uma sacanagem com a Noviça Rebelde: na minha música, os filhos do almirante Von Trapp descobriam que a noviça era na verdade um travesti: Eu cantava até ‘Edelweiss’. Cantava com microfone sem fio, chiquérrimo. Depois, com a Carla Camurati, a gente fez uma peça infantil. Foi quando o Léo Jaime, que é um cara genial, começou a dar força, dizendo que eu tinha era de cantar. Ele foi minha fada madrinha, e me levou pro Barão Vermelho, um grupo que tinha um som tipo Led Zepllin, um rockão gostoso, e precisava de um cantor. Cheguei bem pianinho, devagar. Era um bando louco, pintava camburão na porta, porque os vizinhos lá no Rio Comprido, onde ensaiavam, reclamavam da barulheira. Aos poucos fui apresentando as minhas músicas, eles foras se amarrando nas letras, e pintou a parceria com Roberto Frejat, a paixão da minha vida, uma gracinha de parceiro”.

“Desde pequeno, eu sonhava ser cantor, me ouvir cantando no rádio. Sonhava que um dia meu pai ía ter um Mercedes e ele comprou um. Sonhava em transar algumas pessoas e aconteceu. Não conto, ninguém pode provar mesmo. Mas ter uma música cantada por Caetano, era um sonho meu, e aconteceu. O Ney, quando surgiu, foi uma porrada na minha cabeça. A liberdade sexual que ele transmite é mais forte até que Mick Jagger. Então quando ele gravou Pro dia nascer Feliz, foi um barato. Quando o Caetano, no show Uns, no Canecão, cantou Todo Amor Que Houver Nessa vida, deu um esporro porque não tocavam o Barão no rádio, foi outro sonho. Acho que a minha estrela é mesmo muito boa…”

“Gosto de estar sempre com muita gente. Não vou a boates, porque não gosto de lugar fechado. No bar, você de certa forma está na rua, sai para comprar um cigarro, volta sabe quando, bêbado, feliz da vida por ter encontrado gente. Nesse sentido, sou meio viralata, como já falou de mim o André Midani. Mas curto um Jack Daniels, apesar de ter pouca grana para comprar. Aliás, grana é sempre curta e acaba logo. Este apartamento foi meu pai quem me deu. O carro também. Quando o caixa fica russo, é ele quem me socorre. Dependo dele pro lance de médico, porque não dá pra segurar 50 paus por uma consulta. Mas pago minha comida, meus pequenos luxos. No fundo sou um perdulário. Mas com a segurança de ter um pai rico. Dono de gravadora. Não cheguei a fazer sucesso por amizade ou proteção. O Ney não grava a minha música por amizade. Foi por amor mesmo. A mim e à música. No meu meio, irremediavelmente meu pai seria o meu patrão, porque afinal se ele não fosse da gravadora (Som Livre), até porque ele é presidente da Associação Brasileira de Discos. Se a Liza Minelli tivese parado para pensar nisso, nunca teria sido atriz. Mas não tenho culpa por ser filho de pai rico, e porque as coisas foram mais fáceis para mim. Nunca tive que vender livros na rua, feito o Tavinho Paes. Ou porque não passei fome, como o Léo Jaime”.

“Sou muito vaidoso e muito desleixado. Gosto de uma mordomia, aqui no apartamento tá tudo em ordem porque a empregada cuida bem de mim, senão seria a maior zorra. Mas não sei cuidar das coisas. Imposto de Renda me dá tique nervoso. Tenho de chamar um amigo pra resolver prá mim. Este ano perdi até a chance da restituição, por não ter guardado nenhum comprovante. Sou meio dessituado, meio perdido. Me vejo um pouco meio Carlitos, com o sapato trocado. O carro morre no meio da rua, porque esqueci de pôr gasolina. Quando fui votar, não sabia direito como fazer… votei no Brizola, porque representa a esperança. Aliás, eu sou da geração do AI-5, que nunca soube de nada, mas a gente sempre quis votar. Eu levo fé que a gente ainda vai ter representatividade. Vou votar num deputado e poder cobrar posições”.

“Enfrentar o palco para mim é tudo. Aflora um lado sensual meio incontrolável. Às vezes, entro de pau duro, a coisa pinta até antes de subir ao palco… Outras vezes, entro morrendo de medo, mas, cantando solta a tensão. Sem brincadeira, é lance sexual mesmo. Fora do palco, sou tímido, um menininho, me sinto profundamente desajeitado. Mas, no palco, sou um Super-homem, de pôr a capa e sair voando. Sinto o sexo aflorando, olho para as pessoas e sinto que tem uma coisa também, que volta em resposta. Porque estou mostrando uma coisa bonita que eu compus: não sou humilde, gosto mesmo do que faço. É muito o lance do prazer, eu e a platéia transando pra caralho”.

“Eu fico feliz quando penso que o homem difere dos bichos e das plantas porque pode amar sem reproduzir – embora o Papa não goste disso. O homem transa por prazer. Então pode ser homem com homem, mulher com mulher, com diafragama, com pílula, com o que for… Homossexualismo é assim uma coisa normal. E o hetero, e o bissexualismo. O homem pode amar independente do sexo, porque ele não é bicho, não é planta. Se o cara não quer, não sente atração, tudo bem. Mas não tem esse negócio de regra geral quando se fala de amor. Quando pinta tesão, estou com Tim Maia e Sandra de Sá: “vale tudo”, mesmo!”

“Por enquanto, o que me dá maior prazer além da música é o beijo na boca. Aquele lance do beijo que é o “fósforo aceso na palha seca do amor”. O beijo começa tudo; é da boca que vem a relação… a primeira vez que se entra numa pessoa. Pra mim, é essencial. Sou capaz de ficar de pau duro se beijar alguém”.

“Tem gente que se irrita, porque eu canto que todo mundo vai pegar a sua pasta e ir pro trabalho de terno, enquanto vou dormir depois de uma noite de trepadas incríveis. Mas o dia-a-dia não é poético, todo mundo dando duro e a cada minuto alguém sendo assaltado ou atropelado. Então, vamos transformar esse tédio numa coisa maior. Li uma vez que você vive não sei quantas mil horas e pode resumir tudo de bom em apenas cinco minutos. O resto é apenas o dia-a-dia. Um olhar, uma lágrima que cai, um abraço… Isso é muito pouco na vida. Então, isso vale mais que tudo para mim. Prefiro não acreditar no day after, no fim do mundo, no apocalipse. Um dia, ainda vou andar na nave espacial Columbus. Bêbado, lógico, mas vou andar! ”
Playboy, Mônica Figueiredo, dezembro/84

“Sexo sem amor dói, mas ao mesmo tempo é ótimo. Isso me angustia, mas é a melhor forma de viver. Trepo com todo mundo, sem a nostalgia de um romance. Aquela coisa cristã de ter alguém. No fundo é uma escolha essa falta de compromisso. Afinal, não é todo dia que você encontra sua Yoko Ono. E enquanto ela não pinta vou levando na sacanagem”.
Status, Apoenan Rodrigues, dezembro/1984

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Sobre Josi Vice

Moro em Recife, Pernambuco, onde nasci a 11 de outubro de 1985. Sou latino americano pós- moderno, poeta, cínico, dark, emocional e cerebral, um caranguejo com cerébro pós- Chico, um Nietzscheano sem Nietzsche, com delírios de poeta intelectualóide. Escrevo poesia desde os 15 anos. Sou fissurado em Hentai, Slipknot e Rock´n´Roll e em Literatura, Pop ou qualquer música de boa qualidade. Também adoro navegar pela net e pesquisar na web. Amo ler revistas e artigos, principalmente se for de culura. Esse cara sou eu. Nome real: Josafá César da Silva, mas prefiro Josi Vice ou Joker Vice ou César Vice. Signo: Libra Bandas e cantores preferidos: Slipknot, Beatles, Sex Pistols, Marilyn Manson, Cazuza, Legião Urbna, Elvis Presley, Silver Chair, Echo & The Bunnymen, The Cult, Southern Death Cult, Depeche Mode Poetas Preferidos: Fernando Pessoa, Camões, Marcos Henrique, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos, Allen Ginsberg Escritores favoritos: Nietzche, Machado de Assis, Paulo Coelho, Clarah Averbuck, Franz Kafka, Clarice Lispector e John Fante
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