Fala Cazuza

cazuza

“Os problemas do Brasil parecem ser os mesmos desde o descobrimento. A renda concentrada, a maioria da população sem acesso a nada. A classe média paga o ônus de morar num país miserável. Coisas que, parece, vão continuar sempre. Nós teríamos saída, pois nossa estrutura industrial até permitiria isso. O problema do Brasil é a classe dominante, mais nada. Os políticos são desonestos. A mentalidade do brasileiro é muito individualista: adora levar vantagem em tudo”.

“Educação é a única coisa que poderia mudar este quadro. Brasileiro é grosso e mal-educado, porque não pensa na comunidade, joga lixo na rua, cospe, não está nem aí. Este espírito comunitário viria com a cultura. Acho que o socialismo talvez possa trazer este acesso à cultura de massa. Fazer como o Mao Tsé-tung fez com a China. Educar todo mundo à força. Temos que estudar, ler, ter acessos a livros”.

“O inferno é aqui. A cabeça da gente é um inferno. E essa de “o inferno são os outros” não sei não… Pra mim, que dependo muito de amigos, de carinho dos outros, não vejo a vida contra alguém. Posso até ser meio ingênuo. Essa visão de inferno e céu: eu não vejo o inferno como uma coisa ruim e o céu como bom. O céu pode ser uma chatice e o inferno uma coisa divertida. Aliás, as imagens que temos do inferno são sempre aquelas onde localizamos o demônio, as pessoas transando, se comendo. O inferno é um baile de carnaval no Monte Líbano”.
Interview n. 12, 1988

“Estou careta, não bebo, não tomo drogas, não estou mais na noite; estou tratando de mim de um jeito que nenhuma babá trataria. Nunca tinha ido a um médico até os 30 anos… eu não sabia que tinha um corpo e que ele podia falhar um dia”.

“Troquei de analista e tenho mais fé. Chamei por Deus, sim, a gente sempre chama o nome de Deus em vão, não é? Acho que Deus é parte do medo que a gente tem”.
Janeiro/1988, republicado em Amiga, julho/1990

“Ideologia fala da minha geração sem ideologia, compactada entre os anos 60 e os dias de hoje. Eu fui criado em plena ditadura, quando não se podia dizer isso ou aquilo, em que tudo era proibido. Uma geração muito desunida. Nos anos 60, as pessoas se uniam pela ideologia. ‘Eu sou da esquerda, você é de esquerda? Então a gente é amigo’. A minha geração se uniu pela droga: ele é careta e ele é doidão. Droga não é ideologia, é uma opção pessoal. A garotada teve a sorte de pegar a coisa pronta e aí pode decidir o que fazer pelo país, embora do jeito que o Brasil está, haja muita desesperança”.
O Globo, Deborah Dumar, janeiro/1988

“Acho que o poeta é um insatisfeito. Então a noite, a vida noturna, a vida boemia, da farra, são geralmente frequentadas por pessoas insatisfeitas… Acho que é a própria insatisfação do artista que o leva a ter uma vida desregrada… Você diz que eu sou poeta, mas eu me considero um letrista, gosto de falar que sou letrista, porque eu acho que tem uma distância entre poesia e música popular…”.

“Não sei se algum dia vou ser poeta, realmente. Quando me vem uma idéia na cabeça, ela já vem musical. É um processo criativo meu; escrevo cantarorando uma coisa na minha cabeça… Eu vejo a poesia como um trabalho com a palavra mesmo. Todas as possibilidades que você pode tirar da palavra, da gramática. Acho que faço uma coisa mais ligada à música do que à palavra e por isso não me considero poeta”.

“Eu tenho um lado que leva as coisas muito a sério. Eu pareço ser uma pessoa que não leva nada a sério! E o que me salva na minha vida é que eu não consigo levar esse meu lado sério tão a sério”.

“O rock já não é uma coisa da qual se possa debochar… A gente está com uma força de palavras, as pessoas estão ouvindo o que o Renato Russo fala, o que o Lobão fala… Por mais que cada um tenha caminhos loucos, eles estão falando. Somos uma geração muito mal informada – não tivemos participação política alguma; estamos chegando aos tropeções. A gente nunca teve ideologia…”

“Eu sou muito romântico e me defendo muito com o meu lado agressivo. Eu estou deixando essa faceta de criança, ingênua, bobão, puro mesmo, aflorar bastante. Como eu estou sem defesa, estou sem biritar – a bebida era uma coisa que me defendia um pouco das pessoas; eu tomava 3 uísques e virava o meu herói. E eu fiquei muito fraco, doente, exposto, frágil, muito feminino, muito ‘yin’… Isso tudo ficou muito forte e é muito legal…”.

“A coisa de que mais sinto falta é a época em que andávamos em tribo. Hoje em dia trabalho muito sozinho – cada vez eu me vejo mais só”.

“Acho que a revolução é na vida da gente. Com 18 anos você quer mudar o mundo e com 40 não quer mais. Por que isso? A gente muda! Tem uma coisa de época também… teve uma época de distensão, de abertura de costumes, que foram os anos 60 e 70. Agora estamos voltando ao moralismo. E estamos vivendo uma época chata”.
Bizz, Sônia Maia, março/1988

“Está pintando uma coisa diferente em 1988, primeiro porque dei uma parada para pensar na minha vida, estive muito mal, muito doente, quase morri. Foi uma coisa que me mudou. Parei de sair à noite, estou levando uma vida diferente, me preservando, me escondendo mais. Então me perguntei como seria agora que não tenho mais meus celeiros criativos que são os bares. Essas pessoas meio marginais com quem eu convivo, sou fascinado por isso. A maioria das coisas que faço, por incrível que pareça não é auto-referente. A inspiração vem muito das situações que vivem as pessoas que estão à minha volta, embora cante na primeira pessoa, sempre tiro de um amigo que brigou com a namorada…. E por aí. E agora? Eu meio na janela, observando o mundo, escondido na minha casa, com menos amigos, apenas os mais chegados…”

“Eu achava que não podia falar sobre política, por não ser uma pessoa política. Eu tinha muito preconceito em falar no plural, achava que só falava bem do meu mundinho. Isso começou a mudar quando fiz a letra de Um trem pras Estrelas, com a música do Gil, a partir do roteiro do filme de Cacá Diegues. Depois conversando com mil pessoas, inclusive Gil, pensei por que não mostrar a minha visão, por mais ingênua que ela seja? Não sei quanto é a dívida externa, qual é o rombo das estatais… não estou por dentro destas coisas, tenho uma visão romântica, mas a maioria da população também deve ter uma visão ingênua, então por que não me posicionar?”

“Tenho fé em mim mesmo, a minha experiência com Deus é por aí, sou muito pragmático, cético. Nunca me envolvi com misticismos, mas até acredito em magia. Quanto à minha saúde, tive muita fé na ciência e também no astral de querer ficar bem. Toda doença é muito cabeça, se você não está bem, acaba influenciando suas células. Antes de ficar doente ja me sentia como um personagem. Eu estava aparecendo mais em coluna social com um copo de uísque na mão do que pelo meu trabalho. Todo dia nas ruas, nas festas, querendo aproveitar cada minuto, mas estava meio down, ou então um clone de mim mesmo. Agora, sem beber ou tomar drogas, coisas de que sempre gostei, mas tive de parar para continuar vivo, consegui um pouco mais de paz o que levou a uma mudança até como letrista”.
Jornal da Tarde, 04/março/1988

“Nuca escondi que sou bissexual. A aids não é uma epidemia e ninguém pode deixar de se amar por causa dela. Vamos usar camisinhas! Vamos resistir até que encontrem a cura para essa doença”.

“Liberdades conquistadas são liberdades conquistadas. Usei minha rebeldia contra a morte “.
Abril/1988, republicada em Amiga, julho/1990

“Dei a volta por cima da morte. Isso me deu uma fé muito grande. A doença é metade corpo, metade carma – uma atmosfera da qual você precisa se livrar. Saí da doença com o corpo fraco e a cabeça forte. O tratamento médico nos Estados Unidos foi tão importante quanto a gravação do disco. Este disco é da sobrevivência”.

“Comi o pão que o diabo amassou. Não dá para o repórter chegar e me perguntar: ‘Como vai a tua Aids?’, ‘Como vai seu câncer?’ Não posso dar satisfação sobre o que está acontecendo com o meu corpo. Isso é assunto meu e do meu médico”.

“Estou querendo me livrar do personagem Cazuza. Não quero mais falar em minhas músicas de sexo e drogas. Deixa isso para o Lobão. Não quero mais segurar cartaz. Não quero nem que cachorro me siga na rua”.

“As revistas de fofocas dizem que fiquei careta. Não sou uma ‘Madalena Arrependida’. A droga foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Abriu a minha cabeça. Maconha, ácido… Mas não podia sair do hospital e continuar bebendo e me drogando. Era uma opção: continuar vivo ou morrer”.

“Não quero que me imitem. Não quero ninguém atrás de mim. Tenho muito medo de ser porta-voz de qualquer coisa”.

“O futuro do rock brasileiro está na música mais percussiva, baiana, caribenha. É um filão genial meu porteiro e a minha empregada, vibram com a música de Sara Jane e Gerônimo”.

“Não tenho peito de falar mal das pessoas. O Lobão fala mal de todo mundo, mas não sai de casa. Eu saio muito, encontro as pessoas”.
Folha de São Paulo, Maurício Stycer, 21/abril/1988

“Antes eu me sentia cronista da minha tribo, muito reduzida, por ser a tribo dos boêmios(…) Agora, minha temática se tornou mais abrangente. Não que não me considere mais cronista da minha tribo, mas é que minha tribo aumentou”.
O Estado de S.Paulo, abril/1988

“Às vezes fico pensando que a Aids parece mesmo coisa da CIA misturada com o Vaticano. Sei que é um pouco de loucura pensar isso, mas faz sentido, faz. Faz muito sentido”.
Jornal do Brasil, abril/1988

“Sempre fui muito piranha, mas com essa história de Aids e também resolvi me guardar mais, estou mais calmo. Não namoro há mais de um ano, mas estou aberto ao que pintar”.
Maio/1988, republicado em Amiga – julho/1990

“Eu sempre fui uma pessoa de duas vidas, de duas casas. Eu era durante o dia uma pessoa, e à noite tomava quinhentos mil conhaques, e virava o Super Cazuza, entendeu? Isso me encheu o saco”.

“As pessoas sabem de histórias minhas que eu nem me lembro. Se alguém me pedisse para escrever um livro sobre a minha vida, eu não poderia. Não me lembro. Foram noites e noites. E depois? Acordei e tomei outro porre”.

“Custei a acreditar, que eu era realmente um artista, sabe? Eu queria fazer uma zona, aparecer nas revistas, nos jornais, mostrando ‘tá vendo papai, tá vendo vovó’… Era uma coisa mais ou menos de provar coisas para quem não acreditava que eu fosse capaz de fazer. Foi uma época meio estranha, acho que todo artista tem isso, eu não me considerava, achava que eu era um cara da rua, da praia, que estava ali fazendo zona. Eu não tinha consciência do que eu estava fazendo. E as pessoas começavam a me cobrar, falando bem do meu trabalho, gostando, identificando coisas… Aí, você começa a ver que é um artista”.

“A cada dia que passa, eu estou me sentindo mais compositor. O ano passado (1987) fiz uma música para a ngela Maria e ela gravou. Chama “Tapas na cara”. A Elza Soares também gravou uma música que fiz com a Denise Barroso. É engraçado isso, acho que meu trabalho atingi de oito aos oitenta. Agora me considero compositor profissional. É o que dá mais prazer, muito mais até do que fazer shows. Por exemplo, eu gozo todo dia quando ouço a Gal cantando “Brasil”, sei que o país inteiro está ouvindo, ela canta bem pra caralho. Isso me dá tanta alegria!!! É genial ouvir minha música na voz da maior cantora brasileira”.

“Nunca vou ser uma grande estrela porque sou preguiçoso, sou incapaz de fazer aula de canto, de tentar me aprimorar, tomar aulas de expressão corporal. O artista que deseja ser star, que deseja mesmo brilhar nos palcos, tem este tipo de preocupação”.

“Jamais conseguiria morar fora do Brasil. Eu não sou nada cosmopilita, nada sofisticado, sou muito simples. Gosto de ver televisão, de ir à praia, tomar cerveja no botequim, fui criado bem classe média. Meu pai quando ficou rico, eu tinha quinze anos. Quando chego em N.Y. fico irritado, falo mal inglês, as pessoas não entendem o que eu falo, dá vontade de matar, enforcar… Fico me sentindo um aleijado, um índio, uma pessoa do terceiro mundo, envergonhado, sabe? Isto se transforma em raiva, vendo aquelas pessoas posudas, com aplomb… Europeu também tem isso…”.

“Já viajei bastante, morei na Califórnia, em Londres… Essa coisa é tão arraijada, que morei oito meses nos E.U. E falo inglês mal! Nem vou a cinema mais, quando viajo. Pra que? Perco 50% dos diálogos, sem legenda eu me fodo. Nas peças da Brodway não entendo nada!”

“O Rio é uma cidade louca por isso: é meio provinciana e é enorme. As coisas todas acontecem em volta da Lagoa. Eu me considero um personagem da zona sul. Se ali for ao Méier, vou me sentir igual em Nova York, tão estranho quanto. Este esquadro é típico de quem mora perto da praia. A praia é uma coisa muito poderosa”.

“Fui um dos fundadores do Baixo Leblon, claro! Até hoje, quando volto lá sou homenageado. Fazem uma festa interminável. Eu adoro”.

“Sinto pouco o desejo de vingança. Sou muito critão nesse aspecto, no sentido da compaixão, da piedade, tenho pena das pessoas. Quando alguém me sacaneia, penso: ‘coitada daquela pessoa’. Não estou dando uma de grandioso, mas não sinto vontade de me vingar, de devolver, pão pão, queijo, queijo”.

“Graças a Deus, sou uma pessoa que não tem inimigos. Deixa até bater na madeira… não posso dizer que de tal pessoa eu não gosto, posso até não me ralacionar muito com elas, mas não tenho inimigos. Luto para não ter, sou até meio falso às vezes, trato todo mundo bem, sou muito vaselina. Ajo assim deliberadamente. Já tive até quem eu pudesse odiar, mas não entro nessa. É um peso desnecessário. Sou muito egoísta, centrado em mim mesmo, para me incomodar assim com os outros”.

“Minha visão de prazer é parecida com a letra de uma canção que fiz para Dulce Quental: ‘Inocência e Prazer’. Acho que você só consegue ter prazer, quando você é completamente puro, ingênuo, inocente. Se você arma de um lado e de outro, o prazer foge. Ou então, quando consegue a coisa, está exausto. Prefiro ficar desarmado frente às pessoas e fatos. Então chega o prazer”.

“O tédio é o sentimento mais moderno que existe, que define o nosso tempo. Tento fugir disto, pois tenho uma certa tendência ao tédio. Mas eu sou animadérrimo… Sou muito animado, para sentir tédio!!! Sou animado à beça, qualquer coisa me anima. Se você me convida para ir na Barra da Tijuca, eu te digo logo: ‘Vaaaamos!!!’Qualquer besteira me anima. Tudo que já passei na minha vida, não conseguiu tirar esta animação. Eu me sinto sempre ganhando presentes. Se faço uma entrevista e leio depois no jornal, acho o máximo tudo, a foto, o texto… Estou sempre ganhando brinquedos. Me interesso por estes brinquedos um tempo, depois largo… Minha vida é muito assim, sempre morrendo de rir, nunca com tédio. E quer saber de uma coisa? O que salva a gente é a futilidade”.
Interview, Eduardo Logullo, 1988

“Vai ser um show curto, de cinquenta minutos. Uma música atrás da outra, sem sair do palco, bem conciso. Estou a fim de me aperfeiçoar como cantor. Quando eu cantava somente rock, eu não ía na melodia, eu recitava a letra, era mais gritado. Ser cantor agora é uma coisa tão forte, que eu economizo gestos, fecho mais os olhos para cantar, coisa que o Ney (Matogrosso) me ensinou. Nesse show falo em vida umas seis vezes. Hoje tenho enorme respeito pela vida – peço licença”.

“Estive doente, me tratei e estou legal. Mas isso é da minha vida pessoal. Fiquei mais místico, aprendi a aceitar o amor e o ódio. A vida é para ser aceita. Se você não aceita, você é infeliz. Isso é a compaixão. Todas as músicas do novo disco, foram feitas antes de tudo acontecer.”

“Eu não era uma pessoa normal. Desde os treze anos, levei uma vida muito louca. Quando a gente é jovem, não percebe que as ressacas vão ficando cada vez piores. Então hoje estou tomando cuidado comigo, e isso faz com que eu tenha mais gáz e faça coisas diferentes”.
Jornal da Tarde, Ana Carmem Faschini, 16/agosto/1988

“Tenho feito mil experiências. Fui ao Santo Daime e achei interessante. Foi uma experiência fantástica tomar o Daime. Eu já tinha tomado muito ácido, cogumelo, mas era diferente. O Daime é uma coisa religiosa, uma coisa de sentir Deus, sabe? Eu não vou lá todo dia, pois eu não gosto dessa coisa de clube, seita. Mas foi uma ajuda. Eu descobri uma coisa religiosa em mim que é muito importante para minha cabeça”.
O Globo, Tom Leão, outubro/1988

“Ainda bem que existe um passado, para existir um futuro, e para o presente ser essa maravilha que está sendo. Estar aqui com essa gente bonita, selecionada. Se aquela mulher, Maria Helena Godim, estivesse aqui, poderia fazer um livro, ‘Sociedade Brasileira do Underground, do overground e do sensurround’…”
O Globo, Milton Abiraches, 26/outubro/1988

“O artista não é um operário, que bate o ponto e tal. Eu não acredito que ninguém possa ser operário da arte, porque a arte é contra a transformação do homem numa máquina”.
Bizz, novembro/1988

“O rock and roll é como uma trepada, muito ligado ao sexo e às drogas”.
” De alguma forma me considero brega nas coisas que escrevo. Sou cafona e assumo. Gosto de palavras como ingratidão. Sou meio Augusto dos Anjos: ‘escarra na boca que te beija'”.
Isto é/Senhor – Nov/1988

“Todo dia acordo e vou direto pegar uma ducha e um sol aqui na minha varanda da Lagoa, fico massageando a minha cabeça… E continuo na minha boêmia, saio toda noite, todo dia na rua. Não vivo sem os meus amigos: São pessoas que eu não esqueço, não existe essa de virou artista, ficou famoso. Os meus amigos são os mesmos há quinze anos. Vou no mesmo ponto da praia de ‘trinta anos, no mesmo bar há quarenta’. A minha vida é muito simples… é bem uma vidinha aqui do Rio: ir num cinema, num teatro, na praia que adoro… aproveitar essa maravilha… pego o carro e subo até as Paineiras, para passear na floresta…”

“Eu sempre fui patriota, de gostar de ser brasileiro, de gostar de morar no Rio de Janeiro, de adorar isto aqui. Tanto que eu fiquei seis meses na Califórnia e voltei correndo. Jamais pensei em viver fora do Brasil, nunca sonhei com isso, seria muito infeliz se morasse fora. Sou daquelas pessoas que têm amor à terra. Mesmo na época da ditadura, com aquele clima tenso, militarismo… eu cresci em meio a isso, e a gente debochava muito do país. Porque o brasileiro é muito macunaíma, debocha de si mesmo, mas acho isso supersaudável, é uma prova do bom humor do brasileiro, enquanto o americano é todo duro. Aqui no Brasil,a gente não se leva à sério; De Gaulle tinha razão, não é um país sério. E o brasileiro é genial por isso”.

“Eu sou otimista e foi o otimismo que me fez ficar vivo. Se eu não tivesse otimismo num certo momento, eu teria dançado. Eu consegui ver que eu mereço ser feliz, porque eu achava que não merecia. Eu era muito culpado, por isso fiquei mal, não conseguia ser feliz. Era muito feliz para o lado de fora, o ‘exagerado’ da rua, mas comigo mesmo não”.

“Todo mundo comentava: o Cazuza vive rindo, é o cara mais louco, distribuindo felicidade, levantando o moral de todo mundo’. E eu, lá dentro mesmo não gostava de mim. Foi uma loucura quando descobri isso. Porque é óbvio, todos estes temas de análise, de não gostar da gente, da culpa, sempre estive por dentro, conversava com amigos analistas, mas nunca tinha parado para olhar para dentro de mim. Então, hoje, eu estou vendo tudo com este otimismo, acho que o Brasil vai dar certo. As eleições para prefeito foram uma maravilha. Fiquei emocionado. Talvez ocorram ainda algumas conturbações, mas acho que não vamos repetir igualzinho 64, desta vez aprendemos a lição. Tento acreditar nisso”.

“Eu ia comprar um carro agora, ganhei uma grana, não tenho problema de dinheiro, gasto, sou perdulário. Aí vi uma Alfa Romeo, que é um sonho que tenho desde criança, uma Alfa conversível, vermelha, e tava com um preço que eu podia pagar. Mas pensei bem e vi que ía me sentir tão mal dentro desse carro – quando parasse num sinal e chegasse uma criança vendendo balas: preferi então comprar um Jeep Gurgel”.

“Achei legal a atitude do Gibnerto Gil em se candidatar, e foi linda a votação que ele teve. Gil é muito “voduzado” na Bahia, pelos liberais mesmo, a elite baiana não gosta dele, a classe média alta o odeia, mas ele é querido pelo povo. Quanto a coisa de Gil ter apoiado publicamente os cinco anos do Sarney eu discordo – eu era pelos quatro -, mas também respeito a sua opção: as pessoas têm que ser flexíveis”.

“Sempre escrevi, mas não sou muito bom de poesia, tenho guardado, mas vai custar muito para tirar da gaveta, não mostro não. Tenho muito desconfiômetro, sou a pessoa que debocha de mim mesmo com mais escárnio. Antes de qualquer pessoa falar eu já falei, tenho uma autocrítica que é uma coisa louca. Mas o que escrevo tem uma coisa musical, já vem com uma música na cabeça, que é uma música imaginária. Só agora que comecei a assumir também que estou compondo música: no último disco tem três faixas com letra e música minhas. Mas procuro não compor muito sozinho: Jamais faria um disco todo com material só meu porque seria um bode”.

“Em relação a minha vida, o que fica é uma busca muito grande da felicidade. Então, 1988 foi um ano feliz para mim. Eu acho que agora, mesmo nos meus momentos de tristeza, vai ser diferente, mudou uma coisa, consegui dar um clique e descobri uma base de felicidade e a partir daí é que sigo em frente”.
Manchete, Antonio Carlos Miguel, 31/dezembro/1988

“Viva a Erundina. E que todo brasileiro tenha comida e sexo em exagero”.
Dezembro/1988, vários jornais

“Minha bebida é mesmo uísque. Quando vou ao ‘people’ peço Black and White ou Cutty Sack, que têm mais malte que álcool”.

“Tudo de noite é mais interessante. Gosto de sair, de correr de carro em qualquer dessas freeways da zona sul, de estar com os amigos, de dançar. E com o fim do African Bar, só tem o People para ir. Tenho cartão, sou super bem tratado pelos garçons. Quem é biriteiro, boêmio como eu, tem que se dar bem com os garçons. Sou muito querido também pelos do Baixo Leblon, lugar ao qual sou emocionalmente muito ligado. Morei muitos anos em cima da Farmácia Piaui, da janela via como estava o movimento”.

“A mulher canta melhor que o homem, se entrega mais, não tem vergonha de dar bandeira”.

“Eu estou aprendendo a ser feliz. Tem que se educar. Que nem você tem que aprender a ler, a escrever, tem que aprender a ser feliz. Eu só vou parar no dia que eu morrer”.

“Eu choro muito sozinho, nunca consegui chorar na frente de ninguém. Às vezes, minha mãe brigava comigo, me batia, e eu esperava ela sair para chorar. Sozinho, de noite, tem vezes assim, que ao invés de rezar eu fico chorando”.

“Eu sou cínico, revoltado e menino, mas principalmente muito menino. Sou um edé no candomblé. Sempre que eu vou a um lugar espírita, vem um indiozinho me proteger. Meu anjo da guarda é uma criança”.

“Eu gosto muito de mentiras sinceras. Isso é a minha cara, porque às vezes uma mentira bem contada… é a tal coisa, eu só quero uma verdade inventada. Às vezes a mentira é tão criativa que vira uma verdade”.

“Eu sou uma pessoa que precisa de drogas. Um fuminho de vez em quando, sabe? Pra viajar um pouco, meu estado natural me cansa, me dá tédio ficar o tempo todo careta”.

“Qualquer droga faz mal. Eu acho que a maconha faz mal, cocaína faz mal, alcool faz mal, mas eu… não posso causar mal nenhum a não ser a mim mesmo”.

“Esse negócio da Aids foi um freio. O prazer passou a ser um risco de vida. Tem pessoas que sabem transar bem com isso, outras não. Tenho amigos que quando vão transar vomitam”.
“A Aids caiu como uma luva, modelinho perfeito da direita e da Igreja. A Aids caiu assim como um taileur para eles, que nunca estiveram tão elegantes… e deselegantes principalmente”.

“Depois que eu vi a cara da morte eu mudei muito em coisas assim palpáveis, como perder o medo de andar de avião, mas no básico eu continuo o mesmo. Não é que eu não tenha mais medo de morrer, é que eu gosto tanto de estar vivo que acho que vai ser um desperdício morrer”.

“(A morte ) é um triângulo de luz, é uma paz como se fosse um gozo, como se fosse um choque de heroína”.

“Uma coisa é certa: morrer não dói. Eu estive perto dela e é prazeroso, não dói”.

“Eu tenho desprezo total pela Igreja e pela direita. Eu acho a direita uma coisa tão mesquinha, o poder individual, eles são tão… Eu gosto de viver no coletivo. Eu sou da esquerda porque tenho muitos amigos, gosto de dividir as coisas, acho super bonito dividir”.

“O primeiro sentimento do ser humano é a competição. Ele nasce, pega o peito da mãe, e já está competindo com o pai. Depois vem a inveja, que é mais ou menos a mesma coisa que a competição. Então, eu acho que Cristo e Marx foram muito ingênuos. Eles tentaram estirpar isso do homem, e é impossível. O ser humano é competitivo. O leão, o tigre é competitivo, os animais são competitivos. Então, é como amputar um dedo, sem a competição as pessoas ficam sem um dedo”.
TV Bandeirantes, dezembro/1988

Cantor Cazuza

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Sobre Josi Vice

Moro em Recife, Pernambuco, onde nasci a 11 de outubro de 1985. Sou latino americano pós- moderno, poeta, cínico, dark, emocional e cerebral, um caranguejo com cerébro pós- Chico, um Nietzscheano sem Nietzsche, com delírios de poeta intelectualóide. Escrevo poesia desde os 15 anos. Sou fissurado em Hentai, Slipknot e Rock´n´Roll e em Literatura, Pop ou qualquer música de boa qualidade. Também adoro navegar pela net e pesquisar na web. Amo ler revistas e artigos, principalmente se for de culura. Esse cara sou eu. Nome real: Josafá César da Silva, mas prefiro Josi Vice ou Joker Vice ou César Vice. Signo: Libra Bandas e cantores preferidos: Slipknot, Beatles, Sex Pistols, Marilyn Manson, Cazuza, Legião Urbna, Elvis Presley, Silver Chair, Echo & The Bunnymen, The Cult, Southern Death Cult, Depeche Mode Poetas Preferidos: Fernando Pessoa, Camões, Marcos Henrique, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos, Allen Ginsberg Escritores favoritos: Nietzche, Machado de Assis, Paulo Coelho, Clarah Averbuck, Franz Kafka, Clarice Lispector e John Fante
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