Kurt e Courtney sentados numa árvore Revista Sassy – Abril de 92

Kurt e Courtney sentados numa árvore

Revista Sassy – Abril de 92
por Christina Kelly

São 11 da noite e tenho estado sentada neste restaurante de East Village desde o início da noite, esperando Kurt Cobain, do Nirvana, e Courtney Love do Hole chegarem para nossa entrevista. Nesta tarde chuvosa em especial o Nirvana tem o disco número um do país, o extraordinário Nevermind, que vendeu, tipo, três milhões de cópias. O álbum foi seu primeiro por uma grande gravadora; a estréia, Bleach, foi lançado pela SubPop em 1989 e vendeu apenas 50.000 cópias quando eles eram apenas um trio punk do noroeste underground. O seu súbito, massivo e chocante sucesso tornou a banda endeusada pela mídia de todo o mundo. E o anti-mainstream Kurt mandou para o inferno todos desde a Rolling Stone até o New York Times. A esta altura, também, todos as grandes gravadoras estão tentando contratar o Hole (a banda de foxcore cuja baterista foi citada em nossa matéria de fevereiro sobre garotas bateristas), longe da Caroline, selo de seu primeiro álbum, Pretty On The Inside. Eu deveria estar preocupada que eles não apareçam para esta entrevista, mas me disseram que tanto Kurt como Courtney são leitores da Sassy, e sei que eles virão.

Enquanto garanto ao garçom que minha companhia chegará a qualquer momento, Kurt e Courtney entram no recinto. Aceno e eles vêm até minha mesa, se desculpando pelo atraso. Courtney está num lindo vestidinho preto, um suéter velho e sapatilhas marrons. Ela fica brincando com seu cabelo oxigenado, cobrindo o rosto com ele e fazendo com que fique em pé e tudo mais. Courtney diz que tem 24 anos, mas acho que pode ter mais. Ela não tem aquela beleza clássica, mas seu estilo é atraente. Kurt, que provavelmente tem mesmo 24 anos, é muito bonitinho, com incríveis olhos azuis que combinam com seu cabelo meio rosa. De qualquer forma, ele é tão magrelinho que eu gostaria de forçá-lo a ingerir uma refeição sólida. Ele usa um jeans em vias de desintegração e um cardigã por cima de uma camiseta do Flipper (a banda, não o programa de TV). Seu tênis preto tem buracos. “Ele tem o disco mais vendido”, diz Courtney, em sua voz áspera, “e só tem um par de sapatos”.

Menciono que vi seu noivado anunciado na MTV quando o vídeo do Nirvana era o número um. Diz Kurt, “Foi embaraçoso, mas também foi meio legal”. Courtney diz, “Achei meio babaca”. Ela está usando um anel de noivado antigo, com um rubi ou algo assim no meio. Kurt também tem um, um anelzinho ornado. “Desculpe por esta espinha”, diz ela, apontando para a bochecha. “Espinhas são marcas de beleza”, diz Kurt.

Kurt tem um jeito muito doce, quase tímido. Ele se sentaria lá e não abriria a boca, mas não de uma forma hostil – além do mais, é difícil para qualquer um, até eu, conseguir falar ao mesmo tempo que a loquaz Srta. Courtney. Mas ele definitivamente responderia qualquer pergunta. Pergunto como se conheceram. “Eu o vi tocando em Portland em 1988”, diz Courtney. “Sou de Eugene. Achei ele muito apaixonado e bonitinho, mas não saberia dizer se era esperto, ou íntegro. E aí o encontrei num show há mais ou menos um ano atrás”. “Butthole Surfers”, diz Kurt. “E L7”, acrescenta Courtney. “Eu realmente o persegui, não de maneira muito agressiva, mas agressiva o suficiente para que algumas garotas ficassem embaraçadas. Sou direta. Isso assusta muitos caras. Tipo, consegui o telefone de Kurt quando eles estavam em turnê, e ligava. E dava entrevistas a pessoas que sabia que entrevistariam o Nirvana contando que tinha uma queda pelo Kurt. Kurt tinha medo de mim. Ele disse que não tinha tempo para se dedicar a mim. Mas eu sabia que era inevitável”. Kurt acrescenta: “Eu só gostaria de dizer que gostava muito de Courtney. Não a estava ignorando. Não estava me fazendo de difícil. Simplesmente não tinha tempo, tinha tantas coisas na minha cabeça”. “Ele tinha que compor um disco fenomenal”, diz Courtney.

O ponto decisivo de sua relação foi em setembro. Courtney se encontrou com um executivo de uma gravadora. “Ele me disse, ‘O que você quer? Posso fazer de você uma grande estrela'”, diz Courtney, cuja banda é de Los Angeles. “E eu disse, ‘Quero ver o Nirvana em Chicago’. Então ele pegou o telefone e gastou, tipo, 1.000 dólares e me comprou um ingresso e eu fui. E foi aí que ficamos juntos”.

Logo se tornaram namorado e namorada. E agora planejam se casar o mais rápido possível (talvez quando você ler isto), ambos de vestido. Kurt gosta de usar vestidos porque são confortáveis e ele diz que fica melhor em baby-dolls floridos. “Nos últimos meses”, diz Kurt, “fiquei noivo e minha atitude mudou drasticamente, e não posso acreditar quanto estou mais feliz. Às vezes até me esqueço que estou numa banda, tão cego pelo amor. Sei que soa embaraçoso mas é verdade. Eu poderia desistir da banda agora mesmo. Não importa, mas estou sob contrato”. Que coisa maravilhosamente doce de se dizer. Não acredito quando Courtney me conta que uma amiga ligou para ela na Europa e lhe disse para não sair com Kurt: “Ela me disse, ‘O que você está fazendo é culturalmente importante e você vai ser sugada se sair com o Kurt”.

Courtney contina: “Chamamos atenção por nossa relação, mas se não tivéssemos bandas, ninguém ligaria. Quero dizer, a razão porque estamos dando esta entrevista é porque as meninas sempre foram treinadas para caçar roqueiros como… objetos. Elas crescem a vida inteira com cavalos ou roqueiros nas paredes. Por mim, não queria casar com uma estrela do rock, eu queria ser uma estrela do rock. Tive uma mãe feminista hippie, e ela me disse que podia fazer o que quisesse. Mas um monte de garotas acham que para sair com alguém legal ou bem-sucedido têm que ser bonitas e submissas e quietas. Elas não podem ser barulhentas e provocadoras como eu, elas não podem ter seu próprio atrativo”.

Courtney claramente quer ser uma grande estrela do rock e tem todo o direito. Ela não quer ser vista como aproveitadora do sucesso de Kurt. E ela parece um pouco paranóica – provavelmente com razão – com medo que do que as pessoas pensem dela. Tipo, quando perguntei se eles tinham planos de sair em turnê juntos, para Kurt foi muito natural. “Sei que quando estávamos em turnê, queríamos que nossos shows fossem juntos”, diz ele. “Gastei tanto dinheiro com telefonemas. A próxima vez que saímos em turnê, sairemos juntos”. Mas Courtney rapidamente interfere: “Isso tem a ver com a minha banda estar num nível em que deveríamos sair em turnê com a banda dele. De outra forma, não o faria. Preferia morrer do que sair em turnê com alguém só porque estou saindo com ele.

“É legal sair com alguém que você sabe que sairia mesmo que fosse uma garçonete e que trabalhou num posto de gasolina – você fica paranóico no meio musical porque nunca sabe porque as pessoas gostam de você. Os namorados de Courtney quase sempre tinham bandas. Kurt nem sempre teve namoradas músicas. Ele saía com Toni Vail, baterista do Bikini Kill. Ele até conta que eles queriam gravar um álbum com as canções que escreveram juntos. Ele e Courtney também querem.

Courtney tem coisas interessantes a dizer sobre garotas no rock. “Eu meio que não acho que é suficiente a esta altura as garotas montarem bandas e serem punks”, ela diz. “Não há muitas garotas hoje em dia que escrevam músicas boas mesmo. Quero escrever tão bem como Charles do Pixies, ou Kurt, ou Neil Young. Parece que as garotas sempre se concentram nas letras. Li na Sassy sobre como as garotas são desencorajadas quanto à matemática, e acho que isso afeta a composição, porque a matemática é uma parte importante do arranjo de músicas na sua cabeça”.

Pergunto a Kurt como estar apaixonado irá afetar suas composições. “Minhas músicas sempre foram sobre temas frustrantes, relações que tive”, diz ele. “E agora que estou apaixonado, espero que sejam bem felizes, ou pelo menos não haverá metade da raiva que havia. Estou tão excitado pelo fato de estar apaixonado desta forma, não sei como minha música irá mudar. Mas estou visando isso. Adoro mudanças. Todas as bandas que mais respeito mudaram a cada álbum. Não suporto ouvir o mesmo formato, onde depois de três ou quatro álbuns sabe exatamente o que esperar. Isso é chato, e é por isso que essas bandas perdem seu público”.

Courtney acrescenta: “É muito mais difícil escrever sobre o nascer do sol e tornar interessante. Sempre terei uma certa quantidade de raiva contra coisas sociais, contra minha vida. Acho que a razão por que muitas pessoas gostam de ambas as nossas bandas é devido à raiva envolvida. A banda dele sempre teve músicas bonitinhas também, mas eu tinha medo das músicas bonitinhas. Minha primeira banda era três garotas, sem baterista, com Rickenbachers de 12 cordas, e fui acusada de ser viadinha. Tenho um trauma mesmo muito grande quanto a isso”.

Courtney gosta de falar sobre tudo e agora ela fala da casa que eles vão comprar em Seattle. “É muito bonita”, diz ela. “É vitoriana. E a coisa que mais gosto de pensar enquanto vamos nos encontros com executivos e tudo isso é basicamente a cor em que vamos pintar as paredes. Quero muito ter um bebê, mas quero poder sustentá-lo sozinha. Quero meu próprio dinheiro. Não poderia pensar em casar com alguém com dinheiro e viver dele”. Kurt, sobre a possibilidade de ter um bebê: “Só quero estar situado e seguro. Quero ter certeza de que temos uma casa, e ter certeza de que temos dinheiro seguro no banco”.

Com o sucesso material do Nirvana, duvido que isso seja problema. Por falar nisso, os fãs do rock alternativo têm uma tendência de criticar suas bandas favoritas quando estas se tornam famosas. As pessoas são invejosas? “Eu seria muito egocêntrico em admitir isso, mas não consigo evitar de me sentir assim de vez em quando”, Kurt diz. “Outro dia estava dirigindo por L.A., ouvindo uma estação college. Eles estavam tocando um monte de minhas bandas favoritas, como Flipper e The Melvins. Eu dizia para mim mesmo, ‘Isto é ótimo’. Aí o DJ começou a falar durante meia-hora sobre como o Nirvana era tão obviamente comercial e que só porque temos cabelos coloridos não significa que somos alternativos. Me senti péssimo. Porque não há nada no mundo de que goste mais do que pura música underground. E ser atacado com esse argumento de que só porque você participa do jogo não é honesto! Você usa o esquema para proveito próprio. Você luta contra eles juntando-se a eles.

É hora de Kurt ir para a MTV, e Courtney tem um compromisso na Charisma Records. Mas primeiro saímos para tirar umas fotos. Eles sentam na calçada e Courtney beija Kurt, marcando seu rosto de batom. Parece muito Sid e Nancy (Courtney, aliás, fez um pequeno papel no filme de 1986). Kurt pede a Janet, empresária do Hole, que lhe dê uma cópia de seu álbum. “Este é o homem com quem vou me casar”, diz Courtney, “e ele ainda não ouviu meu álbum todo”. Então um casal yuppie passa e pede para tirar uma foto com Kurt. “Quem eram essas pessoas?”, pergunto. “Christine”, diz Courtney, “todo mundo tem o disco do Nirvana. Todo mundo”. Acho que sim, porque o cara com a máquina usava uma gravata de bolinhas.

Fonte: Love Hole

kurt cobain e Courtney love image

Sobre Josi Vice

Moro em Recife, Pernambuco, onde nasci a 11 de outubro de 1985. Sou latino americano pós- moderno, poeta, cínico, dark, emocional e cerebral, um caranguejo com cerébro pós- Chico, um Nietzscheano sem Nietzsche, com delírios de poeta intelectualóide. Escrevo poesia desde os 15 anos. Sou fissurado em Hentai, Slipknot e Rock´n´Roll e em Literatura, Pop ou qualquer música de boa qualidade. Também adoro navegar pela net e pesquisar na web. Amo ler revistas e artigos, principalmente se for de culura. Esse cara sou eu. Nome real: Josafá César da Silva, mas prefiro Josi Vice ou Joker Vice ou César Vice. Signo: Libra Bandas e cantores preferidos: Slipknot, Beatles, Sex Pistols, Marilyn Manson, Cazuza, Legião Urbna, Elvis Presley, Silver Chair, Echo & The Bunnymen, The Cult, Southern Death Cult, Depeche Mode Poetas Preferidos: Fernando Pessoa, Camões, Marcos Henrique, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos, Allen Ginsberg Escritores favoritos: Nietzche, Machado de Assis, Paulo Coelho, Clarah Averbuck, Franz Kafka, Clarice Lispector e John Fante
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9 respostas para Kurt e Courtney sentados numa árvore Revista Sassy – Abril de 92

  1. Luana disse:

    Courtney é meia seca e sarcástica aprecio isso nela… E Kurt era um doce de pessoa, cujo muitas deviam ter tido vontade de se casar… ninguém sabe porque Kurt se matou, mas se perguntarem pra mim terei a resposta na ponta da língua…

  2. Yumi disse:

    Então, me responde.
    Pq ele se matou?

  3. Jeni Cobain disse:

    A Courtney é a vaca mais linda q ja vi…
    mas o kurt nao tem o que dizer…. =/
    é a pessoa mais corajosa que ja ouvi falar
    E talvez num futuo bem proximo eu siga os passos dele…

  4. Jeni Cobain disse:

    Ops futuro

  5. Fran disse:

    esse eh a primeira reportagem d q vejo Kurt dizendo q esta mto feliz com Courtney…
    sempre li q a relação deles era movida por odio e amor…

    vai sabe

  6. Tata disse:

    dá até pra ver a cara de ambição dessa mulher ninguém merece tanta falsidade,

  7. Nath Cobain disse:

    Odeio Courtey Love

    ♥ Love Kurt Cobain ♥

    Até hoje nun nun foi provado se o kurt Realmente se matou ou foi a vaca da Courtney o matou por ambição…

    Fika a questão …

    Kurt era otimo e um bocado mais ;D

    Hum gênio… um heroi … um paii
    Aff

    Um tudinho ♥

  8. Gabi Torres disse:

    Kurt Era realmente demais. Era O Cara. Mesmo depois de tanto sucesso, ele ainda era humilde. Pq vamos combinar: ser modesto depois de ver shows cheios de gente gritando seu nome, ver milhares de pessoas com seu disco, cantando suas músicas, dizendo que te ama e que sua banda é a melhor do mundo, você é um gênio e tudo mais, sinceramente; não sei se eu ainda conseguiria ficar com a cabeça no lugar. É muita fama, muita ovação; isso meche com as pessoas. Agora, só as realmente boas, aquelas que têm caráter e são incríveis, conseguem isso. Kurt era assim. É por isso que mesmo depois de 15 anos, após o lástimo de seu suicídio, ele ainda tenha essa legião de fãns fiés, como eu, que ouve suas músicas todos os dias para se lembrar de como há pessoas tão incríveis que passam neste mundo.
    Kurt, te amo, você foi demais;
    Descanse em paz.
    **Gabi**

  9. mdmdm disse:

    amo courtney e kurt!!!

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